quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Duas Alices

São 7h da manhã. Estou no hospital desde as 5h40min. Débora está sendo preparada no centro cirúrgico para uma cirurgia cesariana, que trará às nossas vidas a pequena Alice. Enquanto aguardo ansioso na sala de espera, uma mulher aparentando entre 65 e 70 anos chega empurrando uma cadeira de rodas, nela trazendo um senhor com cabelos e sobrancelhas brancas. Ela o conduz a uma antessala para que o mesmo vista a roupa de cirurgia. Uma enfermeira tenta ajuda-lo. “Por favor, não pegue neste braço que ele sente dor”, avisa a senhora. Ela então passa o braço direito do senhor pelo seu pescoço e desaparecem sala adentro. Após alguns minutos, ele é novamente colocado em sua cadeira e conduzido para o centro cirúrgico. A senhor parece apreensiva.
- Do que ele vai operar? – pergunto eu, ao ver a expressão triste da senhora.
- De um tumor... – responde ela com expressão triste e desanimada.
Sem saber o que dizer, eu apenas levanto as sobrancelhas e demonstro compartilhar de sua tristeza. Ela então começa a contar sua história.
- Pra você ver: tive três filhos e meu marido morreu. Criei os três trabalhando no pau-de-arara. Mas eu era nova, tinha 32 anos. Então eu conheci ele e nos casamos e tivemos mais um filho. Ele é bem mais velho que eu. Agora sou eu que cuido dele. Sou sozinha, não posso contar com  ninguém.
Nesta hora, duas coisas me passam pela cabeça: 1) Quando os pais envelhecem, a maioria dos filhos lhes dão as costas; 2) Eu fiz certo em não perguntar se aquele senhor era pai dela...
- E você?, pergunta ela.
- Estou aguardando minha esposa. Ela está no centro cirúrgico, fez uma cesariana.
- Ah, que bom! Deus abençoe vocês!
Surge então uma enfermeira dizendo que o médico que ia operar aquele senhor quer falar com ela. Entra então na sala um médico jovem, que se senta ao lado dela pra explicar a situação. “Não dá pra operá-lo. Só vamos fazê-lo sofrer. Ele já está com 91 anos, é uma cirurgia de risco, e há grandes chances de não funcionar. O tumor é muito agressivo! Duas semanas atrás era apenas um versão; hoje há caroços por todo o lado esquerdo do corpo. Acho que se o operarmos, só vamos judiar dele. Vamos encaminha-lo para a radioterapia e tentar proporcionar o melhor fim possível a ele”, diz o médico nada otimista. A senhora respira, olha para o chão. Está claramente triste, porém aparentemente conformada. “O que se pode fazer, né doutor?”
O médico sai da sala e nos deixa a sós novamente. Minutos depois surge a enfermeira com a Alice nos braços. Eu me levanto rapidamente e a pego nos braços. Tem os olhos incrivelmente azuis! Quando olho para o lado, ali está a senhora, de pé ao meu lado, admirando a Alice.
- Que bebezinha mais lindinha! E como é grande! Olha que olhos lindos! Como é o nome dela?
- É Alice.
– Eu também me chamo Alice... – diz ela, com um sorriso no rosto.

Vejam como são as coisas. Duas Alices: uma acabando de chegar, trazendo alegria a todos, sem a menor ideia do que a espera; a outra, com tantos anos já vividos, atravessando um momento tão triste e sem muito que esperar dos anos que vida que restam. Inexplicavelmente, eu me transporto para aquela cadeira de rodas e me imagino velhinho, doente e sem forças. Desejo, então, não falhar com a educação da Alice, para que, caso eu precise, ela siga o exemplo da dona Alice e não me abandone.

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