quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Coisas que são urgentes

Em outras épocas eu era alguém que vivia muitas experiências. Em 2005, por exemplo, quando criei este blog, eu dava aulas na rede pública e na universidade. No ano seguinte passei também a ter histórias pra contar da academia onde eu fazia hidroginástica, e do ônibus em que viajava pra dar aulas na universidade. Ainda tinha minhas aventuras pra contar das viagens que eu fazia em uma estrada cheia de perigos e percalços. Por outro lado, eu era um rapaz cheio de sonhos. Queria construir minha casa, casar-me e ter meus filhos.
Hoje em dia as histórias que eu tenho pra contar são um pouco menos interessantes ou, talvez, eu já não tenha mais tempo pra conta-las. Isso porque eu consegui construir minha casa, casar-me e ter dois filhos maravilhosos. Eles ainda são novos e é a eles que eu dedico o tempo que eu tinha pra escrever aqui de vez em quando.
Escrever é algo que eu sempre gostei muito de fazer. Porém, no momento há outras coisas que são mais urgentes. Meus filhos não podem esperar! Meu filho nasceu outro dia e já está com dois anos e seis meses. Preciso investir na moldagem de seu caráter e na sua educação. Tudo o mais, por agora, me parece menos importante. Além disso, eles são o meu maior orgulho, são as minhas maiores vitórias.

Muitas das histórias que eu teria pra contar agora seriam sobre minhas experiências como pai. Elas serão contadas à medida do possível. Eu só preciso que alguém pare o relógio pra eu fazer isso...

domingo, 3 de novembro de 2013

Convulsão

Quarta-feira, 7 de janeiro de 2007. O relógio do celular acusa 12h18min. Estou almoçando na faculdade, em companhia da amiga Niege. Somos professores de pós-graduação e fazemos parte do grupo de pesquisa em Química aqui da universidade. Estamos sentados em uma mesa azul, onde há um enorme símbolo da Pepsi desenhado. As cadeiras também são azuis. De um buraco no centro da mesa emerge, meio desequilibrado, a haste de um enorme guarda-sol. Enquanto eu deixo o garfo e a faca de lado, na tentativa de centralizar a haste do guarda-sol, eu tento prestar atenção no que a Niege está me contando. Sinto-a preocupada e ao mesmo tempo magoada com algumas coisas que têm acontecido por aqui. São coisas que não nos dizem respeito, mas que de certa forma mostram que existem bastidores também na ciência de nosso país e que os mesmos não são tão floridos como a maioria pensa. Ao conseguir centralizar o guarda-sol, tento alternar meu olhar entre a Niege e o prato de comida, para que eu possa manter a boca cheia e, ao mesmo tempo, prestar atenção no que ela diz. Em uma rápida olhada pela praça de alimentação, percebo que há muitas pessoas no local. Há poucos lugares disponíveis. Circulando entre as mesas, com camisa branca contendo os dizeres "Forno e fogão" bordados em azul, um homem negro, aparentando entre 30 e 40 anos transita ente as mesas com pratos e bandejas na mão. Seu apelido é Luisinho. Sua função é retirar os pratos e bandejas que os "fregueses" deixam sobre as mesas. É um homem humilde. Quando cumprimentado, limita-se a um mero movimento de cabeças. Dificilmente abre a boca para falar algo, talvez por causa da timidez ou (quem sabe?) por ser de origem humilde e estar trabalhando para alunos "ricos"...
Retorno rapidamente os olhos para a Niege. Meus ouvidos permanecem sempre atentos ao que ela fala, mas meu pensamento viaja longe, como se estivesse elaborando uma resposta para tudo o que ela está me contando. Ela realmente está muito chateada. Após alguns minutos, ela termina com um simples "Você acha que tem cabimento?" Agora com a vez da palavra, eu exponho o que meu lento pensamento conseguiu processar dentre todas as coisas que ela disse. "Olha, Niege, eu acho que você tem razão quanto à sua forma de pensar, mas acho que há também um outro lado que pode lhe ser prejudicial caso você revele o que está me revelando agora. Eu sugiro que você..." Sou então interrompido por um enorme estrondo. É o som etridente, característico de um prato que cai e se quebra ao colidir com o chão. Este som vem acompanhado por um outro um pouco mais "oco", como se uma pessoa tivesse caído. Tentando manter a calma, eu olho na direção de onde veio o som. Percebo então um rápido movimento de pessoas próximo ao palco onde as bandas costumam todar. "Meu Deus do céu, acudam aqui, por favor! O Luisinho caiu!" Ao olhar em direção ao aglomerado de pessoas, vejo o Luisinho, que há poucos segundos avistei, caído no chão. Ele me parece inconsciente, pois seus olhos estão fechados. Deitado de bruços e com os braços junto ao corpo, o Luisinho colide sua cabeça sucessivas vezes contra o chão, em movimentos ritmados e repetidos. Aos poucos um corte se abre logo acima de sua sobrancelha, fazendo gotejar sangue sobre o chão onde ele está batendo a cabeça. Sua boca começa a encher-se de sangue, que ele parece estar inconscientemente cuspindo. "Meu Deus, Niege, o que é que está acontecendo?", pergunto à minha amiga. Antes que ela pudesse responder-me, alguém que correu em socorro do Luisinho grita: "Chamem um médico, por favor! O Luisinho está tendo convulsões!" Então eu me levanto e dou alguns passos em direção ao corpo do Luisinho, que a esta altura já não sei se está vivo ou morto. Algumas pessoas tentam controlá-lo, na tentativa de fazer com que ele pare de bater com a cabeça no chão. Ao viraram o corpo dele, seu corpo aumenta a freqüência com que ele realiza seus movimentos de convulsão. Assustado com o volume de sangue que a esta altura se acumula sobre o chão, coloco uma mão na boca (que a esta hora está entreaberta) enquanto a outra se mantém na testa. Eu não sei o que fazer! Chocado com aquela cena, eu me afasto e procuro um lugar para sentar-me. O lugar que encontro fica próximo da sorveteria da Perfetto, sob a sombra de enormes eucaliptos. Respiro fundo... Percebo então o quanto somos frágeis e que nesta vida estamos apenas de passagem. A qualquer momento podemos ser chamados a partir desta vida, por isso cada segundo que dela usufruimos deve ser vivido com muita intensidade e amor. Para muitos, não existe uma segunda chance. Eu espero que haja uma para o Luisinho...

Mais uma experiência como professor

9 de março de 2006. Em 2003, tomei conhecimento que uma escola da rede privada, aqui de São Joaquim, estava precisando de um professor de Química. Na época, recordo-me que a minha experiência didática limitava-se às sofríveis e angustiantes aulas de Controle de Qualidade para o curso de Farmácia, uma disciplina que não tinha nada a ver com a minha formação...
Pois bem. Como o meu objetivo na época era juntar uma quantidade de dinheiro necessária para comprar uma casa ou um terreno, tomei a iniciativa de enviar meu currículo para análise. Lembro-me perfeitamente que fui tratado com frieza pelo diretor. Naquele momento, a sua intenção de mostrar-me que eu estava perdendo o meu tempo foi algo constrangedor. Confesso que fiquei, de certa forma, desapontado com o tratamento dele, pois eu precisava muito aquelas aulas.
Mas, como dizem, o mundo dá muitas voltas...
Hoje, passados mais de três anos, a escola está com o sinal amarelo aceso. A situação financeira da escola está tão caótica que o tal diretor acabou vendendo a escola para três professoras, como forma de pagamento da dívida que tinha com os seus professores e funcionários. Uma dessas professoras é minha amiga e, a seu convite, fui cobrir a ausência de um dos professores de Química.
Dois foram os motivos que me levaram a topar esse desafio. O primeiro deles foi por ter sido convidado por essa amiga, que está se dedicando de corpo e alma para reerguer a escola. O segundo é o fato que eu estava curioso para constatar, por mim mesmo, as diferenças entre uma escola pública e uma escola da rede privada.
Com relação à qualidade das aulas, não posso garantir que foram como eu gostaria, mas acho que não deixei muito a desejar. Pelos erros, entretanto, assumo toda a culpa sozinho. Afinal, a coordenadora equivocou-se ao me comunicar o horário e o conteúdo das aulas... Não tive vergonha e proferi uns "não sei" várias vezes...
Como experiência, posso resumir que hoje eu não trocaria mais se trocaria a rede pública de ensino pela rede privada. Não sei se as apostilas e o dinheiro (que sobram na rede privada e que faltam na escola pública) substituem um afeto saudável.
Mais uma vez, Deus mostrou-me que realmente não sei pedir. Por isso, irei apenas agradecer por mais esta oportundidade e por ter me conduzido todos estes anos para o caminho que sigo agora...

Falso professor ou professor falso?

Terça-feira, 7 de dezembro de 2007. Passei toda a manhã tentando preencher os diários e fechar as notas no ensino médio. Havia poucos alunos na escola, então preferi ficar em sala de aula, sozinho, a permanecer na sala de professores. Eis que um professor de Matemática veio conversar comigo. Trata-se de um homem de meia idade, que beira os 50 anos de idade. Ele é desquitado e adora uma “balada”. O professor adentrou a sala e começou a conversar comigo. Após alguns minutos de conversa, perguntei sobre o que havia causado a sua separação. Uma pergunta dessas está longe de ser “fuxico”. Minha intenção é conhecer cada vez mais sobre os relacionamentos. Afinal, a partir de maio próximo eu serei um homem casado. Sem meias palavras, o professor começou a contar-me sua vida. Senti tristeza em suas palavras, e em determinados momentos, lamentei muito a situação em que aquele homem se encontrava. Minutos depois ele deixou a sala e sumiu. Passado algum tempo, as faxineiras começaram a varrer a sala e me comunicaram que só havia eu de professor na escola. Foi então que decidi ir embora. “Ora, se não há alunos e todos os professores se foram, por que irei permanecer aqui?”, pensei. E assim o fiz. Quando estou me aproximando de casa, o celular toca. É a Ivani, nossa coordenadora. “Eduardo, onde você está?”, pergunta ela, com voz séria. Ao ouvir a resposta, ela diz: “Há um aluno aqui pedindo um trabalho para compensar as faltas. A diretoria disse que se você não estiver aqui, você vai ficar com falta”. A questão é que aquele aluno não estava na escola enquanto eu estava lá, caso contrário eu não teria vindo embora. Eu me recordo de tê-lo visto na porta da escola quando fui embora. “Pode colocar falta, pois não acho justo ter que voltar aí só pra satisfazer as vontades deste aluno. Se ele quisesse assistir às aulas ou quisesse realmente um trabalho, deveria ter ido à escola.” Para minha surpresa, fiquei sabendo, por meio de um outro professor amigo meu, que enquanto a diretoria falava que ia colocar falta para mim, aquele professor de meia idade com quem eu acabara de conversar dizia: “Eu concordo com você. Tem que ficar com falta mesmo.” Eu achava que tudo nesta vida tinha limite, mas a falsidade dos homens parece ser uma exceção. Fico então imaginando: o que será dos alunos nas mãos de professores desprovidos de caráter e de ética como este? Como é que se quer construir uma sociedade mais justa quando os próprios professores são os maiores defensores da “lei de Gérson”?

sábado, 2 de novembro de 2013

Última carta ao meu avô Crotti

Querido vovô Crotti,
Não sei bem ao certo por que motivo estou escrevendo estas palavras, pois sei que o senhor nunca as lerá. Na verdade, acho que o senhor nunca teve muita paciência para ler ou, talvez, não goste de ler O fato é que hoje, sem razão aparente, senti vontade de escrever-lhe esta carta.
Embora nós não tenhamos sido muito próximos, as lembranças que guardo do senhor são muito boas. Lembro-me de que o senhor gostava de tocar sanfona, que tinha uma voz grossa e firme. Quando ficava nervoso, sempre dizia que ia dar um tiro na cabeça de alguém. Eu tinha realmente medo de que o senhor fizesse isso, mas o papai dizia que o senhor só falava aqui "da boca pra fora". O senhor também adorava dançar. Jamais esquecerei o dia em que encontrei o senhor em um dos forrós do SEMAI, em uma das vezes em que fui com Débora e os pais dela. O senhor ficou surpreso quando me viu, já que eu nunca soube dançar e muito menos gostava de forró...
Quando tornei-me adulto e comecei a contar piadas, percebi que o papai ficou orgulhoso de mim quando eu as contava para o senhor e o senhor ria delas. Também fiquei sabendo que o se gabou algumas vezes de ter um neto doutor. Tenho ainda guardado o único par de sapatos que o senhor me deu quando eu tinha três anos de idade. É daquele aniversário de três anos a única lembrança que eu tenho do senhor me segurando em seus braços. Aquele presente me marcou tanto... Quando criança, até pedi uma sanfona de presente para o senhor me ensinar a tocar. 
Hoje não adianta mais tentar me desculpar ou pedir que o senhor mude. É tarde demais para nós dois, vovô. Nada restou daquele homem forte e nervoso que conheci. Fui visitá-lo ontem no hospital e chorei muito. As notícias que o médico nos deu não foram boas. Seu pulmão está trabalhando apenas com 10% da capacidade. Os outros 90% foram tomados pelo efizema. O cigarro, seu amigo inseparavél de sempre, acabou levando-o a este estado. O alimento chega até o senhor por uma sonda, e uma outra sonda o ajuda a urinar. O senhor está evacuando muito sangue, vovô, e isso o está deixando anêmico. Quando deixar de evacuar sangue, o médico colocará novamente o balão para ajudar na respiração, e como o pulmão do senhor está comprometido, o senhor terá falta de ar e talvez morra sufocado. O senhor está inconsciente, não reconhece ninguém e não tem força pra falar (não há ar suficiente em seus pulmões...). Em outras palavras, resta-lhe muito pouco tempo de vida.
Sei que o senhor jamais saberá disso, mas preciso dizer que lamento muito pelo que o senhor está passando. Ninguém merece tanto sofrimento. O senhor dizia que eu era um mole e que era preciso ser durão pra vencer na vida. Acho que o senhor passou a me olhar com olhos diferentes depois que comecei a trabalhar. Só que agora, vovô, eu não consigo ser egoísta o suficiente pra pedir que o senhor seja durão e que Deus o deixe conosco nesta situação. É triste escrever isso, vovô, mas eu sei que este é o fim da linha.
Queria também pedir desculpas por não ter sido um neto suficientemente bom, ainda que eu o tenha sempre respeitado. Sentirei saudades da sanfona tocando na varanda, do cheiro de cigarro, de ver o senhor beijando a boca do cachorrinho e até mesmo de vê-lo gritando com a vovó. Aliás, quando o senhor partir (e todos nós sabemos que isso está próximo), saiba que a vovó irá logo em seguida, pois ela o ama mais que a si mesma. Além das lembranças, restará uma família desmantelada, certamente desunida pela briga pelos bens que vocês deixarão.
O papai diz que o senhor nunca lhe deu um abraço, e eu sinto que ele tem muita mágoa do senhor por isso. Percebo que ele queria ter recebido do senhor o carinho que ele me deu, mas que mesmo assim, e do jeito dele, vejo que ele o ama e o respeita muito. Eu espero que o senhor o perdoe.  
Por fim, quero que o senhor saiba que não medirei esforços para que o sobrenome Crotti seja sinônimo de bondade e de boa índole, em honra à força que o senhor tem mostrado nos últimos anos em sua luta contra os seus problemas de saúde.
Com muito carinho,
De seu neto
Eduardo
(meu avô faleceu no final de 2008, pouco depois de escrever esta carta; somente agora tive coragem de publicá-la...)