domingo, 3 de novembro de 2013

Convulsão

Quarta-feira, 7 de janeiro de 2007. O relógio do celular acusa 12h18min. Estou almoçando na faculdade, em companhia da amiga Niege. Somos professores de pós-graduação e fazemos parte do grupo de pesquisa em Química aqui da universidade. Estamos sentados em uma mesa azul, onde há um enorme símbolo da Pepsi desenhado. As cadeiras também são azuis. De um buraco no centro da mesa emerge, meio desequilibrado, a haste de um enorme guarda-sol. Enquanto eu deixo o garfo e a faca de lado, na tentativa de centralizar a haste do guarda-sol, eu tento prestar atenção no que a Niege está me contando. Sinto-a preocupada e ao mesmo tempo magoada com algumas coisas que têm acontecido por aqui. São coisas que não nos dizem respeito, mas que de certa forma mostram que existem bastidores também na ciência de nosso país e que os mesmos não são tão floridos como a maioria pensa. Ao conseguir centralizar o guarda-sol, tento alternar meu olhar entre a Niege e o prato de comida, para que eu possa manter a boca cheia e, ao mesmo tempo, prestar atenção no que ela diz. Em uma rápida olhada pela praça de alimentação, percebo que há muitas pessoas no local. Há poucos lugares disponíveis. Circulando entre as mesas, com camisa branca contendo os dizeres "Forno e fogão" bordados em azul, um homem negro, aparentando entre 30 e 40 anos transita ente as mesas com pratos e bandejas na mão. Seu apelido é Luisinho. Sua função é retirar os pratos e bandejas que os "fregueses" deixam sobre as mesas. É um homem humilde. Quando cumprimentado, limita-se a um mero movimento de cabeças. Dificilmente abre a boca para falar algo, talvez por causa da timidez ou (quem sabe?) por ser de origem humilde e estar trabalhando para alunos "ricos"...
Retorno rapidamente os olhos para a Niege. Meus ouvidos permanecem sempre atentos ao que ela fala, mas meu pensamento viaja longe, como se estivesse elaborando uma resposta para tudo o que ela está me contando. Ela realmente está muito chateada. Após alguns minutos, ela termina com um simples "Você acha que tem cabimento?" Agora com a vez da palavra, eu exponho o que meu lento pensamento conseguiu processar dentre todas as coisas que ela disse. "Olha, Niege, eu acho que você tem razão quanto à sua forma de pensar, mas acho que há também um outro lado que pode lhe ser prejudicial caso você revele o que está me revelando agora. Eu sugiro que você..." Sou então interrompido por um enorme estrondo. É o som etridente, característico de um prato que cai e se quebra ao colidir com o chão. Este som vem acompanhado por um outro um pouco mais "oco", como se uma pessoa tivesse caído. Tentando manter a calma, eu olho na direção de onde veio o som. Percebo então um rápido movimento de pessoas próximo ao palco onde as bandas costumam todar. "Meu Deus do céu, acudam aqui, por favor! O Luisinho caiu!" Ao olhar em direção ao aglomerado de pessoas, vejo o Luisinho, que há poucos segundos avistei, caído no chão. Ele me parece inconsciente, pois seus olhos estão fechados. Deitado de bruços e com os braços junto ao corpo, o Luisinho colide sua cabeça sucessivas vezes contra o chão, em movimentos ritmados e repetidos. Aos poucos um corte se abre logo acima de sua sobrancelha, fazendo gotejar sangue sobre o chão onde ele está batendo a cabeça. Sua boca começa a encher-se de sangue, que ele parece estar inconscientemente cuspindo. "Meu Deus, Niege, o que é que está acontecendo?", pergunto à minha amiga. Antes que ela pudesse responder-me, alguém que correu em socorro do Luisinho grita: "Chamem um médico, por favor! O Luisinho está tendo convulsões!" Então eu me levanto e dou alguns passos em direção ao corpo do Luisinho, que a esta altura já não sei se está vivo ou morto. Algumas pessoas tentam controlá-lo, na tentativa de fazer com que ele pare de bater com a cabeça no chão. Ao viraram o corpo dele, seu corpo aumenta a freqüência com que ele realiza seus movimentos de convulsão. Assustado com o volume de sangue que a esta altura se acumula sobre o chão, coloco uma mão na boca (que a esta hora está entreaberta) enquanto a outra se mantém na testa. Eu não sei o que fazer! Chocado com aquela cena, eu me afasto e procuro um lugar para sentar-me. O lugar que encontro fica próximo da sorveteria da Perfetto, sob a sombra de enormes eucaliptos. Respiro fundo... Percebo então o quanto somos frágeis e que nesta vida estamos apenas de passagem. A qualquer momento podemos ser chamados a partir desta vida, por isso cada segundo que dela usufruimos deve ser vivido com muita intensidade e amor. Para muitos, não existe uma segunda chance. Eu espero que haja uma para o Luisinho...

2 comentários:

Anônimo disse...

Tonhão... com toda esta filosofia... larga mão desta química e mergulhe de cabeça na literatura!

Saudades!

Abraço!

Clodoaldo

Antonio E. M. Crotti disse...

Grande amigo Clodoaldo!
Escrever é um grande prazer, que se torna maior ao saber que os amigos lêem o que a gente escreve. Obrigado!
Saudades de você, "Borná"!
Abração!
Tonhão