sábado, 2 de novembro de 2013

Última carta ao meu avô Crotti

Querido vovô Crotti,
Não sei bem ao certo por que motivo estou escrevendo estas palavras, pois sei que o senhor nunca as lerá. Na verdade, acho que o senhor nunca teve muita paciência para ler ou, talvez, não goste de ler O fato é que hoje, sem razão aparente, senti vontade de escrever-lhe esta carta.
Embora nós não tenhamos sido muito próximos, as lembranças que guardo do senhor são muito boas. Lembro-me de que o senhor gostava de tocar sanfona, que tinha uma voz grossa e firme. Quando ficava nervoso, sempre dizia que ia dar um tiro na cabeça de alguém. Eu tinha realmente medo de que o senhor fizesse isso, mas o papai dizia que o senhor só falava aqui "da boca pra fora". O senhor também adorava dançar. Jamais esquecerei o dia em que encontrei o senhor em um dos forrós do SEMAI, em uma das vezes em que fui com Débora e os pais dela. O senhor ficou surpreso quando me viu, já que eu nunca soube dançar e muito menos gostava de forró...
Quando tornei-me adulto e comecei a contar piadas, percebi que o papai ficou orgulhoso de mim quando eu as contava para o senhor e o senhor ria delas. Também fiquei sabendo que o se gabou algumas vezes de ter um neto doutor. Tenho ainda guardado o único par de sapatos que o senhor me deu quando eu tinha três anos de idade. É daquele aniversário de três anos a única lembrança que eu tenho do senhor me segurando em seus braços. Aquele presente me marcou tanto... Quando criança, até pedi uma sanfona de presente para o senhor me ensinar a tocar. 
Hoje não adianta mais tentar me desculpar ou pedir que o senhor mude. É tarde demais para nós dois, vovô. Nada restou daquele homem forte e nervoso que conheci. Fui visitá-lo ontem no hospital e chorei muito. As notícias que o médico nos deu não foram boas. Seu pulmão está trabalhando apenas com 10% da capacidade. Os outros 90% foram tomados pelo efizema. O cigarro, seu amigo inseparavél de sempre, acabou levando-o a este estado. O alimento chega até o senhor por uma sonda, e uma outra sonda o ajuda a urinar. O senhor está evacuando muito sangue, vovô, e isso o está deixando anêmico. Quando deixar de evacuar sangue, o médico colocará novamente o balão para ajudar na respiração, e como o pulmão do senhor está comprometido, o senhor terá falta de ar e talvez morra sufocado. O senhor está inconsciente, não reconhece ninguém e não tem força pra falar (não há ar suficiente em seus pulmões...). Em outras palavras, resta-lhe muito pouco tempo de vida.
Sei que o senhor jamais saberá disso, mas preciso dizer que lamento muito pelo que o senhor está passando. Ninguém merece tanto sofrimento. O senhor dizia que eu era um mole e que era preciso ser durão pra vencer na vida. Acho que o senhor passou a me olhar com olhos diferentes depois que comecei a trabalhar. Só que agora, vovô, eu não consigo ser egoísta o suficiente pra pedir que o senhor seja durão e que Deus o deixe conosco nesta situação. É triste escrever isso, vovô, mas eu sei que este é o fim da linha.
Queria também pedir desculpas por não ter sido um neto suficientemente bom, ainda que eu o tenha sempre respeitado. Sentirei saudades da sanfona tocando na varanda, do cheiro de cigarro, de ver o senhor beijando a boca do cachorrinho e até mesmo de vê-lo gritando com a vovó. Aliás, quando o senhor partir (e todos nós sabemos que isso está próximo), saiba que a vovó irá logo em seguida, pois ela o ama mais que a si mesma. Além das lembranças, restará uma família desmantelada, certamente desunida pela briga pelos bens que vocês deixarão.
O papai diz que o senhor nunca lhe deu um abraço, e eu sinto que ele tem muita mágoa do senhor por isso. Percebo que ele queria ter recebido do senhor o carinho que ele me deu, mas que mesmo assim, e do jeito dele, vejo que ele o ama e o respeita muito. Eu espero que o senhor o perdoe.  
Por fim, quero que o senhor saiba que não medirei esforços para que o sobrenome Crotti seja sinônimo de bondade e de boa índole, em honra à força que o senhor tem mostrado nos últimos anos em sua luta contra os seus problemas de saúde.
Com muito carinho,
De seu neto
Eduardo
(meu avô faleceu no final de 2008, pouco depois de escrever esta carta; somente agora tive coragem de publicá-la...)

Nenhum comentário: