domingo, 22 de dezembro de 2013

Lembranças de Natal

Meus queridos Miguel e Alice,
Quando eu era criança, o Natal era uma época mágica. Eu podia sentir o cheiro do Natal já quando as aulas terminavam. A cidade e as casas se enchiam de luzes e enfeites. Na televisão os brinquedos dominavam as propagandas. Vovô Mila, vovó Maria e tia Ângela perguntavam desde cedo o que eu e a tia Hérica gostaríamos de ganhar de presente.
Tenho lembranças muito boas daquela época. Na nossa casa o clima de Natal se resumia a um enfeite na porta de entrada. Mamãe dizia que enfeitar a casa só dava trabalho e que era “bobeira”. Só sentíamos que era mesmo Natal quando o papai voltava para casa após quase dois meses longe, lutando ao volante de seu caminhão para sustentar a casa.
Na casa da vovó Lourdes e do vovô Valter o clima de Natal também era evidente. Por motivos que surgiram antes mesmo do meu nascimento, eu nunca tive o costume de visitar a vovó Lourdes, mas nesta época eu ia visita-la quase todos os dias com o papai. O vovô Valter, que também era motorista, retornava ao lar. Eu ficava perto dos dois ouvindo as histórias que os dois contavam. Às vezes ficava procurando uvas na parreira, perguntando à vovó Lourdes se eu poderia pegar um cachinho. Ela deixava, mas já avisava: “É pra salada do ano novo”. Ela se referia à salada de frutas que ela fazia e distribuía para todos os filhos no primeiro dia do ano. Ficava olhando o chão, pintado de vermelho, e o piso vermelho e brilhante da sala, onde ela montava (e assim o fez até o seu último Natal em vida...) a pequena árvore de Natal. No sofá eu sempre encontrava um “Almanaque Sadol”, que sempre continha passatempos e piadas. Eu me entretinha enquanto os mais velhos conversavam na varanda. E como falavam alto! Quando o tio Wágner, a quem o papai chamava de “Buchudo” chegava, a conversa se acalorava. “Meu irmão, você tá ficando doido!”, dizia o papai quando ouvia os “negócios” que ele fazia. Enquanto isso, a vovó Lourdes se ocupava com o almoço. Tio Válter, a quem a gente chamava de “Tim”, chegava com seu fuscão Branco barulhento – o famoso 8018 (assim chamado por causa de sua placa). “Tim, por que você não coloca um escapamento decente neste carro?”, dizia o papai. “Ô homem nojento”, retrucava ele. Mesmo com um dos dedos cortados, ele apertava com força minha mão até que eu gritasse; então ele gargalhava. Mas o melhor Natal de todos foi quando a tia Vânia, o tio Natal e o Frederico estiveram lá. Sempre quieto, na maioria das vezes sem dizer nada, eu andava pela casa e observava tudo, sem tocar nada. Via o quartinho de despejo, onde ficavam as coisas do vovô; o quarto onde o tio Tim dormia; o quarto da vovó Lourdes; o quarto onde haviam duas camas, mas onde ninguém dormia; a sala. Cada detalhe permanece vivo em minha memória, mas as palavras são, neste caso, uma ferramenta muito ineficaz para que vocês entendam como era e o que eu sentia.
Na casa da vovó Maria e do vovô Mila o clima era diferente. Minha única tia materna, a Ângela, vivia com eles e só eu e minha irmã de netos para serem recebidos e presenteados. Muito católicos, eles colocavam uma árvore de Natal logo à porta de entrada e sempre montavam um lindo presépio. Por vezes eu passava a noite de Natal lá, à esperava do presente que o Papai Noel traria, mas que eu só abriria no dia de Natal. Ainda posso sentir o cheiro de sabonete de quando eles se banhavam, e o cheiro de creme dental Kolynos antes de eles irem dormir. Lembro-me das luzes se apagando e de uma única sendo deixada acesa, pra que eu e minha irmã não ficássemos com medo do escuro. No outro dia, os presentes e o delicioso café da manhã. Depois, o almoço, com direito à Coca-Cola de um litro e Guaraná Maçá Don.
Tenho inúmeras lembranças de outras noites e de dias de Natal, algumas muito boas, outras nem tanto, mas são essas boas lembranças hoje me torturam. Em nosso primeiro Natal juntos – mamãe, eu e vocês dois – nós sequer nos reuniremos com seus avós ou seus tios para um almoço...
Quando vocês souberem ler e, principalmente, entenderem essas palavras, saibam que eu e sua mamãe os amamos muito e que nós tivemos em 2013 o melhor Natal que pudemos dar a vocês. Não será necessariamente o Natal que nós idealizamos. Não será um Natal repleto de presentes ou com casa cheia, mas um Natal repleto de amor e carinho, onde, pela primeira vez, fazer vocês dois felizes será nossa única preocupação. 
Com amor,
Papai

domingo, 15 de dezembro de 2013

Beautiful day

2004. Estou assistindo a um episódio do seriado Smallville, que narra a adolescência de Clark Kent, o alter-ego do Superman. No final de um dos episódios da 2ª. Temporada, chamado de “A flor”, Lana conversa com Clark sobre o que aconteceu durante o episódio. Ao fundo, uma linda música começa a tocar. De repente, a câmera se afasta e percebo que os dois estão em cima de um cata-vento. Fico curioso e pesquiso na internet a tal música. Descubro que se chama “Beautiful day” e é cantada pela banda U2. Fico então imaginando-me saindo da varanda da casa que quero construir, sobrevoando a vizinhança... É uma doce passagem de um sonho que, atualmente, está longe de se realizar...

2008. Débora e eu estamos assistindo ao DVD do nosso casamento. Quando se inicia o making off (ou seja, na parte em que mostra a preparação da noiva do salão), percebo que a música “Beautiful day” foi o tema que escolheu para essa parte do DVD. Que doce coincidência...

2013. Estou levando Miguel para a casa de minha mãe. Lá ele permanecerá até que Débora volte do trabalho e o busque. Ele está sentadinho em sua cadeira, no banco de trás do carro, com os cabelos despenteados, olhando pela janela. Está quieto, parece que ainda não acordou. Ligou então o rádio e começa a tocar “Beautiful day”. Digo então a ele: “Filho, olha essa música. Parece que tem um coraçãozinho batendo”. A  música começa a tocar. Ele me olha e sorri. “Papai, essa é bonitinha”. Sim, meu filho, ela é muito bonitinha. Algum dia você vai entender o quanto essa música é especial para o papai. Agora mais ainda, porque eu sempre me lembrarei de você quando eu ouvi-la. 

Meus primeiros seis meses no novo emprego


Foi na primeira semana de junho que comecei a trabalhar no novo emprego.  A sensação foi muito estranha. Todos me conheciam no meu antigo local de trabalho; aqui, para maioria, eu era um desconhecido. Muitos certamente pensaram que eu era um aluno ou técnico. Independente disso, ninguém sequer me cumprimentava ou mesmo retribuída às minhas tentativas frustradas de cumprimento. Mas eu já estava preparado para isso. Fui aprovado em concurso como todos eles, e mais cedo ou mais tarde, entenderiam que agora somos colegas de departamento.
A secretária do departamento explicou-me como a coisa funcionava. “Vamos te dar uma cadeira e uma mesa. O resto é com você. Não fornecemos material de escritório. Folhas para impressão ou canetas é com você. Quando precisar de envelope timbrado, vamos te fornecer, mas um de cada vez.” Em seguida, pediu meus dados para criar minha conta de e-mail. Segui então para uma mesa ao lado da sala onde meu amigo Eduardo, com quem viajo diariamente, gentilmente ajeitou para mim. A cadeira era desconfortável e a mesa muito baixa. Mas eu não podia reclamar do tratamento.  Era preciso ter paciência.
Nas primeiras semanas, sem laboratório e sem sala, concentrei-me em escrever os artigos para divulgar os resultados que eu havia obtido no antigo emprego. Além de uma forma de retribuir à instituição e aos antigos alunos, aquela iniciativa seria também importante para que eu começasse a mostrar serviço. Infelizmente eu veria, nos meses seguintes, esses artigos serem recusados sucessivas vezes pelas mais diversas revistas. Mas eu tinha fé e sabia que era apenas uma fase ruim.
Após passar por mais uma sala improvisada em um laboratório em reforma, onde supostamente meus alunos iriam trabalhar, migrei para uma sala no primeiro andar de um bloco afastado. Ali as coisas começaram a se desenrolar. Ministrei minhas primeiras aulas de Química Geral e já no dia seguinte cinco alunos vieram pedir estágio. Após o segundo dia vieram mais dois. Outros cinco vieram após um seminário que ministrei para o curso de bacharelado. Os alunos parecerem gostar das minhas aulas. Por outro lado, eu havia tido uma empatia enorme por eles.
Nos meses que se seguiram concentrei-me em fazer o que eu devia fazer: trabalhar. Não havia laboratório, mas havia coisas a serem feitas. Apesar de estar pessimista,  submeti meu projeto para a FAPESP. Pedi também a renovação de minha bolsa de produtividade no CNPq. Também consegui trazer as coisas que ficaram para trás na minha antiga instituição. Também participei de algumas bancas.
Quanto ao relacionamento com os colegas, fiquei muito surpreso e grato com uma colega, que havia sido minha professora nos tempos de pós-graduação. Além de passar-me algumas aulas, de dar dicas valiosas e de aceitar meu pedido para dividir uma disciplina com ela, ela presenteou Miguel e Alice. Foi uma grata surpresa. Conforme eu disse a ela, eu não esperava que alguém do departamento tivesse tamanha consideração por mim. Quanto aos demais, eu procuro até hoje evitar cruzar com alguém pelos corredores. Não por não querer conversa ou por ter raiva; é justamente o contrário: não quero cumprimentar alguém e ter que receber de volta um olhar indiferente.
Após seis meses, o balanço é positivo: o projeto, para minha surpresa e satisfação, foi aprovado pela FAPESP; os alunos fizeram uma avaliação positiva da disciplina que ministrei na graduação. Alguns, inclusive, enviaram-me e-mails demonstrando o reconhecimento e agradecendo pelas aulas deste semestre.
Com relação ao antigo emprego, o contato com todos não podia ser melhor. No entanto, a instituição trocou de dono e algumas pessoas que faziam parte do meu cotidiano foram dispensadas. Na verdade, foram 220 dispensas... Estou muito feliz com a decisão que tomei tempos atrás de estudar e de ter idealizado, um dia, trabalhar onde estou trabalhando. Sinto-me realizado. Consigo lidar com todos os aspectos negativos deste novo emprego, pois aqui tenho duas coisas que eu preciso não apenas para ser produtivo e feliz: paz e tranquilidade.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Momento de felicidade

12 de dezembro. Minha esposa, eu e nossos filhos estamos na casa da vovó Maria. Viemos a convite da tia Ângela, que hoje completa mais um ano de vida. Papai e mamãe também estão aqui. As atenções de todos estão divididas entre os meus dois pequenos. Enquanto mamãe, tia Ângela, Clara e vovó babam na Alice, fico com o vovô aqui no quintal. Com o Miguel no colo, eu o chamo. “Filho, o papai vai contar uma historinha pra você.” Ele responde: “Ham...”, já ansioso pela história. Eu prossigo; “Era uma vez um menino que morava numa fazenda muuuuuuuito longe, com seu papai e sua mamãe. Ele não tinha ninguém para brincar. Um dia seu vovô veio visita-lo. Ele ensinou o menino a amarrar seu sapato e brincou de caminhãozinho  com ele. O menininho então pediu para seu vovô imaginar que puxasse o caminhão que ele mesmo havia feito no canivete. E o menininho ficou muuuito feliz.” Quando olho para o vovô, seus olhos estão rasos em lágrimas. Eu e ele sabemos quem é o menininho e quem é o vovô da história que acabei de contar... Eu também fico emocionado...

Passados alguns instantes, ainda com o Miguel no colo, todos param para ver a Clara e eu dançarmos Tarantella. Decido fazer isso com o Miguel nos braços. Ele dá cada risada gostosa! Enquanto rodo, vejo a alegrai no rosto de todos que estão ali presentes. Todos nos olham e sorriem. Miguel está às gargalhadas, que parecem contaminar aos que assistem a cena. Papai parece ter se esquecido que meu tio Tim está em estado grave de saúde devido á diabete; vovó, vovô e mamãe deixaram as dores de lado. Momentos como este são raros e precisam ser registrados pra que eu possa me lembrar dele daqui a alguns anos...