domingo, 15 de dezembro de 2013

Meus primeiros seis meses no novo emprego


Foi na primeira semana de junho que comecei a trabalhar no novo emprego.  A sensação foi muito estranha. Todos me conheciam no meu antigo local de trabalho; aqui, para maioria, eu era um desconhecido. Muitos certamente pensaram que eu era um aluno ou técnico. Independente disso, ninguém sequer me cumprimentava ou mesmo retribuída às minhas tentativas frustradas de cumprimento. Mas eu já estava preparado para isso. Fui aprovado em concurso como todos eles, e mais cedo ou mais tarde, entenderiam que agora somos colegas de departamento.
A secretária do departamento explicou-me como a coisa funcionava. “Vamos te dar uma cadeira e uma mesa. O resto é com você. Não fornecemos material de escritório. Folhas para impressão ou canetas é com você. Quando precisar de envelope timbrado, vamos te fornecer, mas um de cada vez.” Em seguida, pediu meus dados para criar minha conta de e-mail. Segui então para uma mesa ao lado da sala onde meu amigo Eduardo, com quem viajo diariamente, gentilmente ajeitou para mim. A cadeira era desconfortável e a mesa muito baixa. Mas eu não podia reclamar do tratamento.  Era preciso ter paciência.
Nas primeiras semanas, sem laboratório e sem sala, concentrei-me em escrever os artigos para divulgar os resultados que eu havia obtido no antigo emprego. Além de uma forma de retribuir à instituição e aos antigos alunos, aquela iniciativa seria também importante para que eu começasse a mostrar serviço. Infelizmente eu veria, nos meses seguintes, esses artigos serem recusados sucessivas vezes pelas mais diversas revistas. Mas eu tinha fé e sabia que era apenas uma fase ruim.
Após passar por mais uma sala improvisada em um laboratório em reforma, onde supostamente meus alunos iriam trabalhar, migrei para uma sala no primeiro andar de um bloco afastado. Ali as coisas começaram a se desenrolar. Ministrei minhas primeiras aulas de Química Geral e já no dia seguinte cinco alunos vieram pedir estágio. Após o segundo dia vieram mais dois. Outros cinco vieram após um seminário que ministrei para o curso de bacharelado. Os alunos parecerem gostar das minhas aulas. Por outro lado, eu havia tido uma empatia enorme por eles.
Nos meses que se seguiram concentrei-me em fazer o que eu devia fazer: trabalhar. Não havia laboratório, mas havia coisas a serem feitas. Apesar de estar pessimista,  submeti meu projeto para a FAPESP. Pedi também a renovação de minha bolsa de produtividade no CNPq. Também consegui trazer as coisas que ficaram para trás na minha antiga instituição. Também participei de algumas bancas.
Quanto ao relacionamento com os colegas, fiquei muito surpreso e grato com uma colega, que havia sido minha professora nos tempos de pós-graduação. Além de passar-me algumas aulas, de dar dicas valiosas e de aceitar meu pedido para dividir uma disciplina com ela, ela presenteou Miguel e Alice. Foi uma grata surpresa. Conforme eu disse a ela, eu não esperava que alguém do departamento tivesse tamanha consideração por mim. Quanto aos demais, eu procuro até hoje evitar cruzar com alguém pelos corredores. Não por não querer conversa ou por ter raiva; é justamente o contrário: não quero cumprimentar alguém e ter que receber de volta um olhar indiferente.
Após seis meses, o balanço é positivo: o projeto, para minha surpresa e satisfação, foi aprovado pela FAPESP; os alunos fizeram uma avaliação positiva da disciplina que ministrei na graduação. Alguns, inclusive, enviaram-me e-mails demonstrando o reconhecimento e agradecendo pelas aulas deste semestre.
Com relação ao antigo emprego, o contato com todos não podia ser melhor. No entanto, a instituição trocou de dono e algumas pessoas que faziam parte do meu cotidiano foram dispensadas. Na verdade, foram 220 dispensas... Estou muito feliz com a decisão que tomei tempos atrás de estudar e de ter idealizado, um dia, trabalhar onde estou trabalhando. Sinto-me realizado. Consigo lidar com todos os aspectos negativos deste novo emprego, pois aqui tenho duas coisas que eu preciso não apenas para ser produtivo e feliz: paz e tranquilidade.

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