quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Lembranças de um ex-atirador - Parte 3

É difícil esconder-se do sol. Em busca de um pouco de sombra, alguns rapazes que acabaram de se submeter ao exame de seleção para o tiro de guerra encontram-se sentados no ressalto de meio metro de altura que margeia um dos lados da quadra de esportes. Sem terem onde sentar, os demais aproximam-se do muro que faz divisa com a casa com a casa do sargento e permanecem de pé. Encostado ao muro próximo ao portão, com o punho na altura dos olhos para impedir que a luz do sol chegue aos meus olhos, tento procurar algum rosto conhecido dentre os rapazes que ali estão. Minha tentativa é frustrada. Nem mesmo os óculos com lentes que escurecem à medida que a intensidade de luz ambiente aumenta consegue aliviar o incômodo de ter a luz do sol incidindo diretamente sobre mim. Por mais que os quase quatro graus de miopia e astigmatismo tornem o uso dos óculos necessário, eu só os estou usando por insistência de minha mãe, que achou que minhas chances de ser dispensado aumentariam se o sargento visse que eu sou míope. Neste momento, eu os amaldiçoo, pois além de não terem servido ao seu propósito, agora eles começam a atrapalhar minha visão devido ao suor que escorre da testa sobre eles. Eu os tiro e removo o suor escorrido sobre eles com a camiseta, deixando-os ainda mais embaçados com o suor que também umedece a camiseta. Passo então o punho, também úmido de suor, sobre a testa. De nada adianta. Estou banhado de suor. Sem os óculos e com as sobrancelhas baixas, sinto-me como uma topeira que acaba de vir à superfície. Tudo o que consigo ver são paredes pintadas na cor cinza e vários rapazes, agora todos sem face. “Deus do céu, é impossível que eu seja selecionado! Se tiver que atirar, nem o alvo serei capaz de enxergar!”
Subitamente, o sargento se aproxima. “Vamos lá, o pessoal da esquerda, aqui no meio da quadra. O pessoal da direita, os incapazes, aguardem próximos ao muro!”, brada ele. Só então percebo que os rapazes encontram-se divididos em dois grupos. Como eu me encontro no grupo próximo ao portão, minhas chances de ser dispensado aumentam, ainda mais depois de ele ter nos chamado de “incapazes”. Essas palavras parecem tirar um peso enorme de meus ombros. Respiro fundo, aliviado. “Agora é só esperar o certificado de dispensa”, penso comigo.
Enquanto ficamos ao lado, observando, o sargento começa a dar algumas instruções para os que estão no centro da quadra. Ele ensina aos que ali estão duas posições básicas: a posição “sentido” e a posição “descansar”. Na posição “sentido”, os rapazes permanecem com os pés juntos, os braços esticados e as mãos junto às pernas, com os dedos unidos. E a condição básica, que meu pai sempre disse que eu ouviria: “Peito pra fora, barriga pra dentro!”, esbraveja o sargento. Na posição “descansar” os rapazes permanecem com as pernas abertas e os punhos cerrados para trás, na altura da cintura. O sargento então explica que a passagem de uma posição para outra deve ser feita com vibração. “Tiro de guerra, sentido!” Como que em um passe de mágica, aquele bando de rapazes movimenta os braços junto ao corpo e deixa o peso de suas mãos colidirem com suas calças, colocando-se na posição “sentido”, como se fossem verdadeiros soldados. “Caralho, que da hora!”, exclama um dos colegas ao meu lado. “Tiro de guerra, descansar!” Ouço então o barulho dos tênis e sapatos tocando o chão quase que ao mesmo tempo. “Cara, é igualzinho ao exército!”, diz outro. “É claro que é exército, seu imbecil! Ou você acha que o tiro de guerra faz parte da marinha?”, diz outro, provavelmente seu colega, entre risadas, fazendo outros também rirem. “Cala a boca! Que porra tá acontecendo aí?”, grita o sargento, lançando-nos um olhar de raiva. Imediatamente todos se calam. “Puta merda, esse sargento é bravo pra caralho! Esses caras estão ferrados na mão dele!”, sussurra alguém ao meu lado. “Tiro de guerra, sentido!” E a sequência de movimentos se repete. “Tá uma meeeeerda! Seu bando de caga-paus! Tem alguém dormindo?” Ninguém responde. “Quando o seu comandante perguntar, vocês respondem ‘sim, senhor’ ou ‘não, senhor’. Entendido?” Todos parecem entender o recado. “Sim, senhor!”. “Tá fraco, tá fraco! Todo mundo para o chão, vinte flexões!” Alguns hesitam. “Cara, esse chão tá pegando fogo!” O sargento percebe. “Pooooooorra, quando eu falar para o chão, é pra vocês se jogarem! Entendido?” Embora não acreditem nem aceitem, eles parecem terem entendido a mensagem. Todos então se colocam na posição de flexão, com os braços abertos e os pés juntos. “Todo mundo vai pagar junto! Abaixo!” Todo mundo abaixa. “Acima”. Ao comando do sargento, os rapazes esticam os braços e levanta o corpo, alguns com dificuldade. “Quantas foram?” “Uma!”, gritam os rapazes. A sequência se repete. “Quantas foram?”, pergunta o sargento novamente. “Duas!”, respondem os rapazes, visivelmente cansados e enraivecidos. Olho para o lado e o que vejo é inexplicável: ao ver o sofrimento dos colegas, os rapazes do mesmo grupo que eu, os “incapazes”, parecem não nutrir nenhum tipo de piedade por aqueles que estão pagando flexões sob o sol escaldante. Pelo contrário: a maioria parece olhar com admiração para aquela cena e, eu ousaria dizer, parece invejar aqueles que lá estão. Se eu pudesse ler seus pensamentos, provavelmente ouviria “Eu queria estar lá” de pelo menos metade deles.

Após pagarem as vinte flexões, o sargento ordena que os rapazes fiquem de pé, na posição “descansar”. Subitamente, ele nos olha. “Vocês aí, bando de mocorongos! O que estão olhando? Estão com pena deles? Estão com inveja deles? Não precisa! Foi só pra eles sentirem o gostinho do que é fazer parte do tiro de guerra. Eles estão dispensados! Na semana que vem vocês é que estarão aqui!”, proclama o sargento. Alguns dos colegas ao meu lado sorriem, parecem gostar da notícia. Outros, como eu, levam as mãos ao rosto ou à cabeça, inconformados. “Não acredito, eu fui selecionado pra servir o tiro de guerra! Ah, não, era só o que me faltava!”
(to be continued...)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Lembranças de um ex-atirador - parte 2

Enfileirados, os rapazes começam a ser chamados. Vários nomes são clamados a cada vez e eles seguem em direção a uma sala de espera. Aos poucos, um a um, eles vão entrando em outra sala, de onde não voltam mais. De onde estamos não há como saber o que está acontecendo lá dentro. Será que de lá os dispensados já saem com a reservista? Será que os que foram selecionados já recebem a farda? O fato é que qualquer explicação que eu tentar encontrar de nada servirá, pois daqui a alguns instantes serei eu que adentrarei a sala. “Antônio Eduardo Miller Crotti”, diz uma voz aparentemente impaciente. Um frio me percorre a espinha. O estômago gela.
Dou alguns passos e venço a porta que dá acesso à outra sala. Rapidamente, corro os olhos pelo ambiente. Estamos sob um forro de madeira, pintado na cor verde. As paredes são brancas. Nela estão penduradas quadros de personagens importantes do exército. Um deles parece-me familiar e eu me lembro de tê-lo visto nos livros de História do Brasil; parece ser do Duque de Caxias ou do Marechal Rondon. O chão, de cor vermelha, brilha. “Eles devem ter uma faxineira muito eficiente”, penso comigo mesmo, mas logo refuto este pensamento e tenho outro um pouco mais aterrorizante: “Ou será que este chão é limpo pelos atiradores?” Além de mim há três homens na sala. Um deles, um senhor de meia idade com iminência de sobrepeso, me é familiar. Trata-se do “seu” Claudinei, que trabalha há anos como secretário no tiro de guerra. Eu o conheço através de meu avô materno, que mora há menos de cem metros do TG. Um segundo homem, mais jovem, de óculos e de roupas brancas, certamente é o médico do exército. Um terceiro, com farda do exército, provavelmente é o sargento, que será o chefe da instrução da turma deste ano. Há uma “tarja” verde em seu peito onde se encontra escrito “Fernando”. Este deve ser seu nome ou, talvez, seu sobrenome. Ele permanece de pé, parado. Parece analisar cada movimento meu. Seu olhar sisudo faz-me lembrar dos comentários que estão sendo feitos sobre ele, recém-chegado à cidade. Dizem que ele teve treinamento na Amazônia e que é muito enérgico. Embora eu evite olhar para seu rosto, temendo deixa-lo irritado, consigo identificar, de relance, alguns traços nordestinos. Conheci muitos nordestinos em minha infância em Quirinópolis, no Estado de Goiás. Meu pai dizia que eles são “cabra da peste”. Eu não faço a mínima ideia do que isso significa, mas a forma como o sargento me olha faz-me perder qualquer curiosidade que algum dia eu tenha tido de entender essa expressão. Tantas e tantas ideias me surgem em frações de segundos, enquanto o “seu” Claudinei vira a folha do meu formulário e o analisa com cuidado. “Você é parente do “seu” Antônio?”, pergunta ele, arqueando as sobrancelhas e olhando-me por cima dos óculos. “Sim, senhor”. Neste momento o sargento, até então imóvel, balança a cabeça em sinal positivo. “Meu Deus do céu, o que isso quer dizer?”

O médico, então, aponta em direção a um pequeno aparelho em um canto da sala. “Por favor, puxe esta pequena barra para cima com o máximo de força que você puder”. Por um instante, eu fico sem saber o que fazer. Puxo com toda a minha força para ser selecionado ou apenas dou um pequeno puxão para ser dispensado? Sem ter muito tempo pra pensar, opto por um meio termo e puxo com força, mas não toda. Ele então anota alguma coisa no formulário e pede pra que eu fique apenas de cueca. Então ele mede minha altura e anota o meu peso. Em seguida, ele e o sargento seguem para outra sala e pede que eu os acompanhe. Ele se senta. “Você tem algum problema de saúde que o impeça de servir o tiro de guerra?”, pergunta ele. Mostro-lhe então as radiografias. “Tenho um problema na coluna.” Imediatamente ele abre as radiografias e lê o diagnóstico. “Aqui diz que o senhor tem escoliose, correto?”, diz ele. “Sim, senhor”, respondo. Para minha surpresa, e por que não dizer desespero, o sargento pronuncia suas primeiras palavras: “Esquece isso, isso aí não é nada”. O médico apenas balança a cabeça e pede que eu siga em direção à quadra de esportes. Lá se encontram os vários rapazes que passaram pelo exame antes de mim. Parecem aliviados. Eu, por outro lado, encontro-me intrigado: vou ser dispensado ou não?
(to be continued...) 

sábado, 27 de dezembro de 2014

Lembranças de um ex-atirador

Janeiro de 1995. A luz do sol, que aos poucos surge entre as copas das árvores, incomoda. A temperatura começa a subir gradativamente e, pouco a pouco, as gotas de suor começam a escorrer-me pelo tórax, deixando úmida a minha camiseta. Discretamente, olho no relógio no pulso do colega à minha frente; são 8h30min. Eu não o conheço. Na verdade, desconheço a maioria dos rapazes que estão nesta enorme fila, apesar de sermos todos da mesma idade. Há um ou outro colega que conheço por também frequentarem o clube da Baixada e bem poucos cujos rostos eu já vi pelas ruas da cidade afora. Confesso que isso me incomoda. A timidez fez de mim um rapaz introspectivo e é, atualmente, um grande obstáculo para que eu conheça novas pessoas e construa novas amizades.
À minha frente e atrás de mim encontra-se um sem número de rapazes que parecem se divertir com a situação. Por um instante tenho a sensação de que somente eu, com este enorme envelope nas mãos, estou incomodado. Dentro dele encontra-se um par de radiografias de minha coluna, evidência da escoliose que pode fazer com que eu me livre da enrascada que estou prestes a entrar. Ser selecionado para servir o tiro de guerra é uma possibilidade que me amedronta faz tempo por duas razões. A primeira delas é que durante o ano em que eu servir não surgirá nenhuma oportunidade de emprego para mim. Atiradores - é assim que se chamam os jovens que estão servindo o tiro de guerra - não são necessariamente o tipo preferido de empregado, pois uma vez por semana eles se ausentam do trabalho para ficar de plantão, além de poderem chegar um pouco depois do horário. Tudo isso é regularizado por lei e o empregador que dispensar um atirador é penalizado com multa. Por essa razão, jovens que já estão empregados e se tornam atiradores dificilmente serão dispensados. O fato é que estamos atravessando uma situação difícil lá em casa. De uns anos para cá meu pai, por mais que trabalhe, mal tem conseguido pagar as contas. Desde que o governo lançou o Plano Cruzado as coisas para ele e os caminhoneiros em geral ficaram muito ruins por causa do baixo valor do frete. Minha mãe faz “bicos” como costureira para ajudar na renda. Muitas vezes ficamos até tarde da noite, eu estudando e ela costurando. Graças a Deus nunca nos faltou comida, mas quase sempre o que acompanha o arroz e o feijão é abóbora ou queijo ralado. Por esta razão, ser selecionado para servir o tiro de guerra seria tornar-me um filho “inútil” durante um ano, incapaz de ajudar meus pais.
Por mais que ficar sem emprego seja ruim, o que mais me incomoda em servir o tiro de guerra é a sombra de meu pai. Sempre que ele pede pra eu ajuda-lo a fazer alguma coisa - a lavar o caminhão ou a lona ou a pintar as chapas da carroceria - eu procuro fazer o melhor que posso, mas ele nunca fica satisfeito. Diz que eu sou “lerdo” demais. “Você tem que fazer o tiro de guerra, moleque! Quando o sargento vir você lerdo desse jeito ele vai enfiar o coturno na tua canela! Aí você vai virar homem de verdade!”, brada ele em mais uma de suas premonições pouco positivas. Ele diz isso com a autoridade de quem recebeu um diploma de honra ao mérito por ser o que mais se destacou no tiro ao alvo. Por mais que eu queira provar que ele está enganado, sinto que não será servindo o tiro de guerra que eu conseguirei fazê-lo...

Enquanto encontro-me imerso em meu próprio mar de lamentações, cabisbaixo, ouço gargalhadas. “Cara, eu quero servir o TG. Meu primo serviu e disse que é a maior zueira!”, diz um, após narrar algumas aventuras do dito primo. “As mulheres adoram um homem de farda! Meu irmão serviu e disse que foi o ano em que ele mais ‘catou’ mulheres!”, diz outro. Outro rapaz parece triste porque tem certeza de que vai ser dispensado. Os relatos e as histórias vão se repetindo. “Meu amigo disse que fez campanha do agasalho, é bom pra caramba!” Todos aqui parecem enxergar esta situação com otimismo. “Só os melhores é que são selecionados”. Curiosamente, a sequência de comentários vai, aos poucos, fazendo com que eu comece a olhar esta situação com outros olhos. “Não pode ser tão ruim assim”, penso. Alguns minutos depois eu começo a achar-me ridículo com aquele enorme envelope nas mãos...
(to be continued...)
              Leia também: O dia em que voltei a ter 19 anos

domingo, 7 de dezembro de 2014

O almanaque Renascim-Sadol

Todo ano, nesta mesma época, eu me torno uma pessoa saudosista. As lembranças dos fins de ano de minha infância e adolescência tomam conta dos meus pensamentos e me fazem sentir saudade daqueles tempos. Era a época em que o papai voltava para casa, após um longo tempo ausente. Concidentemente, era a época em que eu começava a frequentar a casa da vovó Lourdes quase todos os dias. Lá eu meus primos e tios. Eu me sentava no sofá da varanda ou em uma daquelas cadeiras de descanso feitas de fios de plástico e ficava ouvindo-os conversarem. Quase sempre havia um Almanaque Sadol por ali. Sadol, na época, era um produto do Laboratório Catarinense destinado a aumentar o apetite. Eu adorava folhear o Almanaque, ler as piadas e resolver os passatempos que nele eu encontrava. Às vezes eu andava pelo quintal, e ao vê-lo cheio de folhas eu acabava varrendo-o para agradar a vovó. Como recompensa ela deixava que eu pegasse um cacho de uva da grande parreira que, a esta altura, já fazia sombra por toda a área de cimento vermelho..

Essas lembranças me perseguem todos os anos, mesmo quando minha avó estava entre nós. Curiosamente, são as lembranças boas que me trazem tristeza, talvez por agora serem apenas lembranças. Eu me recordo também das brigas, das saias-justas em que os irmãos e primos acabavam enfrentando por não se gostarem e não quererem se encontrar. Na época, é claro, eu queria que fosse diferente: eu sonhava com todos reunidos na grande mesa que a vovó havia comprado justamente com esse propósito. Coitada, morreu sem realizar seu sonho. Não há mais vovó, não há mais tio Tim, não há mais tio Natal, nem vovô Crotti nem tio Agenor. Talvez essas lembranças sejam minha consciência me alertado para aproveitar as coisas como são e não como eu gostaria que fosse, porque algum dia eu sentirei uma saudade imensa daquilo que, um dia, eu achei que não fosse bom o suficiente. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Futebol - até quando?

O futebol sempre teve um significado muito especial em minha vida. Quando mudei-me de Quirinópolis-GO para São Joaquim da Barra-SP, no início da década de 80, foi este esporte que ajudou-me a fazer novas amizades. Na segunda metade daquela década, já sócio do clube da Baixada, o futebol continuou a ser minha principal ferramenta para fazer novas amizades. Talvez o fato de eu ser esforçado e sempre jogar “sério”, pra ganhar, tenha me tornado um jogador que muitos queriam ter em seus times. Não pelo fato de eu ser um “craque”, absolutamente. Pelo contrário: sempre fui “caneludo”, pouco habilidoso e, por isso, sempre joguei na defesa. Independente disso, eu jamais fui desleal. Chegava “firme” nas jogadas, mas nunca machuquei ninguém ou entrei em confusão por causa do meu jeito de jogar futebol.
Nos tempos de pós-graduação o futebol continuou sendo de grande valia na minha integração social. Houve um tempo em que eu jogava quatro vezes por semana, três em Ribeirão Preto-SP, onde eu passava a semana toda estudando, e uma no sábado, em São Joaquim. Com o término da pós-graduação, em 2005, comecei a trabalhar e me vi como um atleta de final de semana. 
De 2006 pra cá o futebol só me trouxe problemas. Curiosamente, foi nesse ano que venci a casa dos 30 anos. As fortes dores nas costas após as partidas e que persistiam por dias fizeram-me procurar um médico. Fui diagnosticado com três bicos-de-papagaio. O médico disse que eu deveria emagrecer. Passei então a nadar todos os dias e a evitar o futebol. Cheguei a perder 10 kg, mas a dor não passava... Comecei então a jogar usando uma faixa de proteção abdominal para a coluna, além das caneleiras e das tornozeleiras. Os colegas passaram a dizer que eu parecia um Robocop... Virei motivo de chacota. Jogar futebol, enfim, tornou-se um martírio.
Mas a coisa não pararia aí. Teimoso e com o condicionamento físico cada vez pior, fui aos poucos lesionando o joelho direito. Foram duas quedas apoiadas apenas na perna direita que acabaram provocando uma lesão grave. Some então uma joelheira à faixa de proteção abdominal, às tornezeleiras e às caneleiras. Mas nem toda a proteção do mundo seria suficiente pra evitar uma forte torsão no joelho enquanto eu jogava em uma quadra de grama sintética. O pé ficou preso, o joelho seguiu em frente. A proteção no joelho de nada adiantou. Tempos depois eu descobriria que eu já estava com o joelho seriamente lesionado. Isso foi em 2011. Procurei um médico; ele disse que o ligamento cruzado anterior havia se rompido. Quis fazer uma cirurgia; eu me recusei.
De lá pra cá ensaiei várias vezes um retorno aos campos. Quadras e campos de grama sintética estavam definitivamente descartados. Entrei na musculação; nenhuma melhora. Fiz uma cirurgia espiritual; fiquei bom e voltei aos campos. Lesionei novamente o joelho no primeiro dia... Fiz então uma segunda cirurgia espiritual, agora não apenas nos joelhos, mas também na coluna e no calcanhar, que também começava a doer. As dor nos joelhos e na coluna desapareceram do dia-a-dia, mas eu sempre sentia medo de voltar. Eu até corria razoavelmente bem pra um homem de 38 anos que não vive de esporte, mas as dores que eu sentia após os jogos me deixavam desanimado. Era visivelmente falta de condicionamento físico. Agora com dois filhos isso não era a minha maior prioridade e nem poderia ser. E convenhamos: não era fácil entrar em campo para ver jovens na faixa dos 20 anos passando por mim como se fossem aviões e eu sem conseguir pará-los... 
Há um mês matriculei-me em uma academia. Passei a correr três vezes por semana na esteira e a fazer exercícios para fortalecimento das pernas. Hoje decidi então voltar aos campos. Consegui correr bastante e fui útil ao meu time. Dei um chute bem forte para o gol e não senti nem medo nem dor. Consegui voltar em velocidade para marcar – não foi necessariamente para desarmar, mas lembrou-me os bons tempos de adolescência, quando eu era um defensor rápido e difícil de ser batido. Não fiz nenhum gol; aliás, meu time levou vários. Mas consegui participar do jogo, fazer algumas tabelas e dar alguns lançamentos. É difícil descrever quão deliciosa é a sensação de ter realmente jogado futebol novamente. Estou com dores nas pernas, mas nada que flerte com alguma lesão. Muito pelo contrário: nunca me senti tão vivo e jovem nos últimos seis anos como me sinto agora.

A pergunta que você deve estar se fazendo: por que estou escrevendo sobre isso? Simples: eu quero que o Miguel vá comigo ao campo, para ver o quanto o pai dele gosta de futebol. Gostaria muito que ele também gostasse e que, quem sabe algum dia, a gente jogasse no mesmo time em uma dessas partidas. Impossível? O que eu vivi hoje me diz que não...

sábado, 24 de maio de 2014

terça-feira, 8 de abril de 2014

Lembranças da Pós-graduação - Prólogo (parte 1)

12 de dezembro de 1998. Estou andando pelos corredores da Unifran. Olho para os eucaliptos; nunca me pareceram tão altos. Reparo que os jardins são muito bem cuidados. Como é que eu pude passar quatro anos de minha vida aqui e nunca ter reparado nesses detalhes? Talvez eu estivesse tão preocupado em tirar boas notas que não tenha tido tempo pra isso...
Sigo em direção à sala de professores. Na porta, pergunto do “Norba” para o Jocimar, o funcionário que controla o acesso aos professores. Ninguém entra sem a permissão dele. “O Norba tá aqui, peraí que eu vou chamar ele.” Enquanto ele vai buscar o Norba, fico então pensando em como nós nos conhecemos. Lembro-me de ele ter entrado no lugar do prof. Carlos Perez, um simpático velhinho que nos dava aula de Físico-Química, se não me engano. O fato é que o Norba foi um professor um de nossos melhores professores, mas eu aprendi a admirá-lo mesmo foi como ser humano. Embora fosse um professor "gozador" e nós o víssemos sempre alegre, eu sabia que o Norba tinha uma vida difícil.. Em uma certa ocasião, lembro-me de o Norba ter dito, enquanto ia se sentando para fazer a chamada, que estava muito cansado. Um dos colegas de sala, um homem aparentando ter mais de 30 anos, olhou para ele e disse: "Engraçado... Você tem cara de filhinho de papai, cara de quem nunca sofreu na vida!" Norba respirou fundo. Olhou para o "cidadão" (era assim que ele chamava os alunos de vez em quando...) e pediu-lhe para aproximar-se e sentar-se. Na sequência ele contou sua vida para todos nós. Disse-nos que teve que trabalhar em um mercado para ajudar a família e que sua professora lhe disse que ele não estava porque não queria, e não por falta de condições. Contou-nos das poucas horas de sono, dos livros que ele lia durante as viagens de ônibus - isso viria a trazer a necessidade de usar óculos. Contou-nos de seus problemas com a falta de dinheiro, muitas vezes para o básico. Ao final, o nosso colega, de tão envergonhado, não sabia onde enfiar a cara. Foi uma das maiores lições de vida que eu já vi alguém dar! .
Eis que ele surge, magro, de óculos com o cabelo castanho repartido ao meio, camisa por dentro da calça e sapato marrom. “Ô Milão! Vem cá que eu trouxe o seu livro”. Eu sigo atrás dele, em direção ao seu carro, um Corsa 4 portas cor vinho. Ele abre o porta-malas e tira um livro de Química Orgânica, de capa vermelha e título escrito em amarelo. “Pra você eu faço R$40,00”. Eu agradeço. Voltamos então para a sala de professores conversando. Ele pergunta se eu vou fazer no ano que vem. “Bom, agora que me formei, vou continuar trabalhando no almoxarifado durante o dia e fazer licenciatura à noite pra poder dar aulas de Química no ensino médio.” Enquanto eu falo ele balança a cabeça, inconformado. “Mas e o mestrado na USP? Você não vai prestar a prova?”, pergunta ele. “Não... Eu não tenho chances, Norba!” Ele se descontrola. “Vai toma no seu c...! Você é louco?” Eu fico meio sem jeito. “Mas por que você diz isso?”, pergunto. “Miller, pensa o seguinte: imagine você daqui a uns 20 anos, com mulher e filhos. Tá todo mundo lá, sentado em volta da mesa e vocês não têm o que comer. Nesse momento você vai pensar: ‘E seu eu tivesse prestado a prova de mestrado?’ Você tem que pelo menos tentar, Miller! Se não der certo, beleza. Pelo menos você tentou e tira isso da sua cabeça. Se quiser, presta no meio de ano, no ano que vem, sei lá. Mas tem que tentar, caramba!” As palavras dele me deixam pensativo. “É... O que você está dizendo faz sentido”.

Mais que depressa ele pede que eu pegue um papel e caneta. “Anote aí meu telefone. Se você decidir prestar a prova de mestrado, me ligue”. Eu me despeço dele e agradeço por todos os ensinamentos e os conselhos que ele me deu ao longo desses anos. Eis aí um professor de quem eu vou guardar ótimas lembranças. Além de tudo é um exemplo de superação. Espero reencontrá-lo algum dia...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A partida do tio Tim

Querido tio Tim,
Já faz mais de um mês que o senhor partiu e eu ainda não acredito que o senhor se foi. Sempre que eu subo na rua que dá acesso à Rua São Paulo (desculpe-me, até hoje eu não sei o nome dela...) eu olho para a direita na esperança de vê-lo sentado na cadeira de rodas em frente à lanchonete. Às vezes o Miguel olha e diz: “O Ti-tim num tá lá”, como ele sempre dizia quando saíamos para passear de bicicleta e queríamos passar na lanchonete para conversar com o senhor. Então eu digo: “O Ti-tim não mora mais ali, filho. Agora ele mora com o papai do céu. “Ah, o papai do céu...”, responde ele. Eu espero que seu sofrimento tenha, enfim, terminado, para que o nosso, fruto de sua partida, possa ser confortado. Ainda o vejo rindo de minhas piadas ou enfiando o dedo nas costelas do papai. Ainda sinto meus dedos da mão direita sendo apertados pela sua mão forte. Às vezes tenho a impressão de que o senhor vai dobrar a esquina da casa da mamãe a qualquer momento, apressado para começar sua jornada de trabalho no Segato Cozinhas Planejadas.
Meu pai conta que o senhor sempre quis ser caminhoneiro. Em uma de nossas últimas conversas o senhor me contou que gostaria de sentar em um caminhão hidramático e sair viajando pelo Brasil afora. Eu imagino que aquilo representava a sua visão de liberdade, a fuga da dura realidade que se abatia sobre o senhor, praticamente preso a uma cadeirade rodas. Hoje imagino que Deus deve estar feliz com o seu novo motorista. A nós, seus sobrinhos, restaram as doces lembranças e a gratidão por termos vivido tantos anos com o senhor.
Seu sobrinho,

Eduardo

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Carta aos meus filhos

São Joaquim da Barra, 12 de fevereiro de 2014.

Queridos Miguel e Alice,
Faz muito tempo que eu não lhes escrevo. Peço que me desculpem por isso, mas um dia vocês vão entender que eu tenho um motivo muito forte para ter me ausentado daqui: tenho estado o tempo todo ao lado de vocês. Um dia vocês hão de concordar que eu fiz a escolha correta optando por ficar com vocês ao invés de perder algumas horas tentando escrever uma história sobre vocês que eu não vivenciei de perto.
Eu não tenho medo algum de dizer que estou vivendo os melhores anos de minha vida e que estou tentando aproveitá-los ao máximo. No trabalho as coisas não poderiam ser melhores: consegui chegar onde sempre quis. No entanto, tenho procurado trabalhar somente durante o dia, no meu escritório. Em casa eu só trabalho quando é estritamente necessário, quando vocês dois estão dormindo. Afinal, eu não quero gastar com trabalho o tempo que eu tenho para vocês.
Miguel, você tem sido um filho incrível! É bonzinho e educado. Tem obviamente seus minutos de raiva e, também tendo os meus, eu te entendo (embora nem por isso eu deixe de te recriminar). Aos domingos nós já temos um roteiro bem definido: saímos de bicicleta, passamos na banca de jornal e compramos um “mais-mais” (é assim que você chama o chocolate M&M) para você e uma revista para a sua mãe. Seguimos então para a casa da bisa Maria Olívia. No caminho a gente coleta algumas flores de árvores e monta um buquê de flores para ela. Ela adora! Já acostumado, você pede pra ela colocar na água! Em seguida corre para o sofá e lá se concentra para desenhar sob os olhos atentos e cheios de admiração do biso Antônio Miller. Em casa a gente brinca com a fazendinha que a tia Ângela te presenteou; montamos “robozões” e brincamos de quebra-cabeças. São momentos maravilhosos e muito especiais. Como sua irmãzinha ainda é bebê, tenho dormido no seu quarto. Quando você acorda é o meu nome que você chama! Outro dia, quando ia saindo para o trabalho, eu fiquei te olhando e imaginando como é grande o amor de um pai por seus filhos. Quando virei as costas, ouvi você me chamando: “Papai, Miguel tá aqui...”




Alice, minha querida, eu e sua mãe nunca imaginamos que você pudesse vir tão linda! Seus olhos são incrivelmente azuis, provavelmente herança de sua avó Adelina ou, talvez, de seu avô Altair. Você é uma bebê alegre e muito sorridente. Tem a pele clarinha como a neve... Seu pediatra, o doutor Estevam, disse nesta semana que você, prestes a completar quatro meses, está com o tamanho e com o peso de um bebê de seis meses. À noite sou eu quem, muitas vezes, faço você cair no sono. Às vezes te nino no carrinho; outras vezes, no próprio braço. Mas sua mãe é quem realmente cuida de você. Ela é uma mãe extraordinária, tem feito tudo o que pode pra que você cresça forte, saudável, linda e inteligente. Ela se dedica tanto a você que no final da tarde, quando chego do trabalho, ela está exausta. Ao amamenta-la, as forças dela passam literalmente a você. Aliás, você tem sido um pouco teimosa ao não querer pegar a mamadeira – só quer o seio de sua mãe!




Bem, já é tarde. Preciso dormir (vocês e sua mamãe já estão...), pois amanhã é dia de trabalho. Para finalizar esta mensagem, quero apenas dizer-lhes que eu e sua mãe somos muito felizes por tê-los em nossas vidas. Não fazemos ideia do tipo de adolescentes e/ou de adultos vocês serão, mas independentemente disso, gostaríamos muito que vocês vivessem com seus filhos a felicidade que estamos experimentando com vocês. E se Deus quiser, se for a vontade dEle e se nós, seus pais, não falharmos na educação e na moldura do caráter de vocês, vocês experimentarão. Somente então vocês entenderão quão felizes nós fomos durante os dias que descrevi aqui. Espero que ao experimentarem tamanha felicidade vocês olhem para nós, eu e sua mãe, já velhinhos e sem forças, e se lembrem de quem nós fomos um dia para vocês. Quem sabe assim vocês nos reservem um pouco de amor e atenção...
Nós amamos vocês, meus queridos!
Com muito amor,

Papai

sábado, 11 de janeiro de 2014

O primeiro tombo a gente jamais esquece

Querida Alice,
Esta é uma das primeiras cartas que escrevo para você após o seu nascimento. Será a primeira de muitas, se Deus me der sanidade e tempo para conseguir escrevê-las. O fato é que muitas vezes eu tenho que escolher entre ficar ao seu lado e ao de seu irmão a escrever essas cartas. Às vezes não me parece correto gastar tempo escrevendo-as para que você as leia algum dia enquanto você e seu irmão precisam enquanto eu as escrevo.
De qualquer forma, é preciso que você saiba de um fato que ocorreu na madrugada do dia 26 para o dia 27 de dezembro de 2013. Enquanto sua mãe dormia calmamente em nossa cama, com você ao lado em seu carrinho, eu repousava no colchão no quarto de seu irmão. De repente, lá por volta das 3h da manhã, ouvi um grito de sua mamãe. Levantei o mais rápido que pude e a encontrei com você nos braços. “A Alice caiu do carrinho!”, ela me disse, desesperada. Então eu te olhei, com os olhos pesados e com a boca cheia de sangue. “Amor, vamos levar ela para o hospital agora!”, disse ela, já em pânico. Eu a tomei nos braços e te vi, triste... Não chorava, não dava sinais de que sentia dor. Mas sua boquinha estava repleta de sangue. Sua mãe, ao ver o sangue, entra em desespero e cai em pranto. Ela se sentou na cama e colocou as mãos no rosto, desesperada. Então eu te coloquei no carrinho e sentei no closet, em busca de uma camisa para vestir. Naquele momento, minha respiração acelerou-se e eu senti uma dor terrível no peito. Tive que deitar na cama e controlar a respiração. Até aquele momento eu não havia sentido uma dor tão forte e tão terrível. Minha sensação era a de ser muito pequeno e fraco. A possibilidade de que algo de ruim tivesse acontecido a você em função da queda fez-me sentir fraco e incapaz. Após alguns minutos controlando a respiração na cama, olhei para você e vi que o corte era apenas no canto de sua boca e que você, ao cair, tocou primeiro no chão com os pés, e não com a cabeça. A cabeça veio a tocar o criado mudo, exatamente na bochecha direita. Sua mamãe então te pegou nos braços e te amamentou. “O leitinho da mamãe vai curar você”, repetia ela, aos prantos, sentindo-se culpada pelo seu tombo.
Nós sempre te amamos muito, desde que você nasceu. Todos sempre nos encantamos com sua doçura e com sua beleza, mas tudo mudou depois daquele dia. Vivemos muitos anos sem você em nossas vidas, mas aquele dia nos mostrou não apenas o quanto te amamos, mas também que não podemos mais viver sem você em nossas vidas.
Com amor,

Papai