sábado, 11 de janeiro de 2014

O primeiro tombo a gente jamais esquece

Querida Alice,
Esta é uma das primeiras cartas que escrevo para você após o seu nascimento. Será a primeira de muitas, se Deus me der sanidade e tempo para conseguir escrevê-las. O fato é que muitas vezes eu tenho que escolher entre ficar ao seu lado e ao de seu irmão a escrever essas cartas. Às vezes não me parece correto gastar tempo escrevendo-as para que você as leia algum dia enquanto você e seu irmão precisam enquanto eu as escrevo.
De qualquer forma, é preciso que você saiba de um fato que ocorreu na madrugada do dia 26 para o dia 27 de dezembro de 2013. Enquanto sua mãe dormia calmamente em nossa cama, com você ao lado em seu carrinho, eu repousava no colchão no quarto de seu irmão. De repente, lá por volta das 3h da manhã, ouvi um grito de sua mamãe. Levantei o mais rápido que pude e a encontrei com você nos braços. “A Alice caiu do carrinho!”, ela me disse, desesperada. Então eu te olhei, com os olhos pesados e com a boca cheia de sangue. “Amor, vamos levar ela para o hospital agora!”, disse ela, já em pânico. Eu a tomei nos braços e te vi, triste... Não chorava, não dava sinais de que sentia dor. Mas sua boquinha estava repleta de sangue. Sua mãe, ao ver o sangue, entra em desespero e cai em pranto. Ela se sentou na cama e colocou as mãos no rosto, desesperada. Então eu te coloquei no carrinho e sentei no closet, em busca de uma camisa para vestir. Naquele momento, minha respiração acelerou-se e eu senti uma dor terrível no peito. Tive que deitar na cama e controlar a respiração. Até aquele momento eu não havia sentido uma dor tão forte e tão terrível. Minha sensação era a de ser muito pequeno e fraco. A possibilidade de que algo de ruim tivesse acontecido a você em função da queda fez-me sentir fraco e incapaz. Após alguns minutos controlando a respiração na cama, olhei para você e vi que o corte era apenas no canto de sua boca e que você, ao cair, tocou primeiro no chão com os pés, e não com a cabeça. A cabeça veio a tocar o criado mudo, exatamente na bochecha direita. Sua mamãe então te pegou nos braços e te amamentou. “O leitinho da mamãe vai curar você”, repetia ela, aos prantos, sentindo-se culpada pelo seu tombo.
Nós sempre te amamos muito, desde que você nasceu. Todos sempre nos encantamos com sua doçura e com sua beleza, mas tudo mudou depois daquele dia. Vivemos muitos anos sem você em nossas vidas, mas aquele dia nos mostrou não apenas o quanto te amamos, mas também que não podemos mais viver sem você em nossas vidas.
Com amor,

Papai