quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A partida do tio Tim

Querido tio Tim,
Já faz mais de um mês que o senhor partiu e eu ainda não acredito que o senhor se foi. Sempre que eu subo na rua que dá acesso à Rua São Paulo (desculpe-me, até hoje eu não sei o nome dela...) eu olho para a direita na esperança de vê-lo sentado na cadeira de rodas em frente à lanchonete. Às vezes o Miguel olha e diz: “O Ti-tim num tá lá”, como ele sempre dizia quando saíamos para passear de bicicleta e queríamos passar na lanchonete para conversar com o senhor. Então eu digo: “O Ti-tim não mora mais ali, filho. Agora ele mora com o papai do céu. “Ah, o papai do céu...”, responde ele. Eu espero que seu sofrimento tenha, enfim, terminado, para que o nosso, fruto de sua partida, possa ser confortado. Ainda o vejo rindo de minhas piadas ou enfiando o dedo nas costelas do papai. Ainda sinto meus dedos da mão direita sendo apertados pela sua mão forte. Às vezes tenho a impressão de que o senhor vai dobrar a esquina da casa da mamãe a qualquer momento, apressado para começar sua jornada de trabalho no Segato Cozinhas Planejadas.
Meu pai conta que o senhor sempre quis ser caminhoneiro. Em uma de nossas últimas conversas o senhor me contou que gostaria de sentar em um caminhão hidramático e sair viajando pelo Brasil afora. Eu imagino que aquilo representava a sua visão de liberdade, a fuga da dura realidade que se abatia sobre o senhor, praticamente preso a uma cadeirade rodas. Hoje imagino que Deus deve estar feliz com o seu novo motorista. A nós, seus sobrinhos, restaram as doces lembranças e a gratidão por termos vivido tantos anos com o senhor.
Seu sobrinho,

Eduardo

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