terça-feira, 8 de abril de 2014

Lembranças da Pós-graduação - Prólogo (parte 1)

12 de dezembro de 1998. Estou andando pelos corredores da Unifran. Olho para os eucaliptos; nunca me pareceram tão altos. Reparo que os jardins são muito bem cuidados. Como é que eu pude passar quatro anos de minha vida aqui e nunca ter reparado nesses detalhes? Talvez eu estivesse tão preocupado em tirar boas notas que não tenha tido tempo pra isso...
Sigo em direção à sala de professores. Na porta, pergunto do “Norba” para o Jocimar, o funcionário que controla o acesso aos professores. Ninguém entra sem a permissão dele. “O Norba tá aqui, peraí que eu vou chamar ele.” Enquanto ele vai buscar o Norba, fico então pensando em como nós nos conhecemos. Lembro-me de ele ter entrado no lugar do prof. Carlos Perez, um simpático velhinho que nos dava aula de Físico-Química, se não me engano. O fato é que o Norba foi um professor um de nossos melhores professores, mas eu aprendi a admirá-lo mesmo foi como ser humano. Embora fosse um professor "gozador" e nós o víssemos sempre alegre, eu sabia que o Norba tinha uma vida difícil.. Em uma certa ocasião, lembro-me de o Norba ter dito, enquanto ia se sentando para fazer a chamada, que estava muito cansado. Um dos colegas de sala, um homem aparentando ter mais de 30 anos, olhou para ele e disse: "Engraçado... Você tem cara de filhinho de papai, cara de quem nunca sofreu na vida!" Norba respirou fundo. Olhou para o "cidadão" (era assim que ele chamava os alunos de vez em quando...) e pediu-lhe para aproximar-se e sentar-se. Na sequência ele contou sua vida para todos nós. Disse-nos que teve que trabalhar em um mercado para ajudar a família e que sua professora lhe disse que ele não estava porque não queria, e não por falta de condições. Contou-nos das poucas horas de sono, dos livros que ele lia durante as viagens de ônibus - isso viria a trazer a necessidade de usar óculos. Contou-nos de seus problemas com a falta de dinheiro, muitas vezes para o básico. Ao final, o nosso colega, de tão envergonhado, não sabia onde enfiar a cara. Foi uma das maiores lições de vida que eu já vi alguém dar! .
Eis que ele surge, magro, de óculos com o cabelo castanho repartido ao meio, camisa por dentro da calça e sapato marrom. “Ô Milão! Vem cá que eu trouxe o seu livro”. Eu sigo atrás dele, em direção ao seu carro, um Corsa 4 portas cor vinho. Ele abre o porta-malas e tira um livro de Química Orgânica, de capa vermelha e título escrito em amarelo. “Pra você eu faço R$40,00”. Eu agradeço. Voltamos então para a sala de professores conversando. Ele pergunta se eu vou fazer no ano que vem. “Bom, agora que me formei, vou continuar trabalhando no almoxarifado durante o dia e fazer licenciatura à noite pra poder dar aulas de Química no ensino médio.” Enquanto eu falo ele balança a cabeça, inconformado. “Mas e o mestrado na USP? Você não vai prestar a prova?”, pergunta ele. “Não... Eu não tenho chances, Norba!” Ele se descontrola. “Vai toma no seu c...! Você é louco?” Eu fico meio sem jeito. “Mas por que você diz isso?”, pergunto. “Miller, pensa o seguinte: imagine você daqui a uns 20 anos, com mulher e filhos. Tá todo mundo lá, sentado em volta da mesa e vocês não têm o que comer. Nesse momento você vai pensar: ‘E seu eu tivesse prestado a prova de mestrado?’ Você tem que pelo menos tentar, Miller! Se não der certo, beleza. Pelo menos você tentou e tira isso da sua cabeça. Se quiser, presta no meio de ano, no ano que vem, sei lá. Mas tem que tentar, caramba!” As palavras dele me deixam pensativo. “É... O que você está dizendo faz sentido”.

Mais que depressa ele pede que eu pegue um papel e caneta. “Anote aí meu telefone. Se você decidir prestar a prova de mestrado, me ligue”. Eu me despeço dele e agradeço por todos os ensinamentos e os conselhos que ele me deu ao longo desses anos. Eis aí um professor de quem eu vou guardar ótimas lembranças. Além de tudo é um exemplo de superação. Espero reencontrá-lo algum dia...

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