segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Lembranças de um ex-atirador - parte 2

Enfileirados, os rapazes começam a ser chamados. Vários nomes são clamados a cada vez e eles seguem em direção a uma sala de espera. Aos poucos, um a um, eles vão entrando em outra sala, de onde não voltam mais. De onde estamos não há como saber o que está acontecendo lá dentro. Será que de lá os dispensados já saem com a reservista? Será que os que foram selecionados já recebem a farda? O fato é que qualquer explicação que eu tentar encontrar de nada servirá, pois daqui a alguns instantes serei eu que adentrarei a sala. “Antônio Eduardo Miller Crotti”, diz uma voz aparentemente impaciente. Um frio me percorre a espinha. O estômago gela.
Dou alguns passos e venço a porta que dá acesso à outra sala. Rapidamente, corro os olhos pelo ambiente. Estamos sob um forro de madeira, pintado na cor verde. As paredes são brancas. Nela estão penduradas quadros de personagens importantes do exército. Um deles parece-me familiar e eu me lembro de tê-lo visto nos livros de História do Brasil; parece ser do Duque de Caxias ou do Marechal Rondon. O chão, de cor vermelha, brilha. “Eles devem ter uma faxineira muito eficiente”, penso comigo mesmo, mas logo refuto este pensamento e tenho outro um pouco mais aterrorizante: “Ou será que este chão é limpo pelos atiradores?” Além de mim há três homens na sala. Um deles, um senhor de meia idade com iminência de sobrepeso, me é familiar. Trata-se do “seu” Claudinei, que trabalha há anos como secretário no tiro de guerra. Eu o conheço através de meu avô materno, que mora há menos de cem metros do TG. Um segundo homem, mais jovem, de óculos e de roupas brancas, certamente é o médico do exército. Um terceiro, com farda do exército, provavelmente é o sargento, que será o chefe da instrução da turma deste ano. Há uma “tarja” verde em seu peito onde se encontra escrito “Fernando”. Este deve ser seu nome ou, talvez, seu sobrenome. Ele permanece de pé, parado. Parece analisar cada movimento meu. Seu olhar sisudo faz-me lembrar dos comentários que estão sendo feitos sobre ele, recém-chegado à cidade. Dizem que ele teve treinamento na Amazônia e que é muito enérgico. Embora eu evite olhar para seu rosto, temendo deixa-lo irritado, consigo identificar, de relance, alguns traços nordestinos. Conheci muitos nordestinos em minha infância em Quirinópolis, no Estado de Goiás. Meu pai dizia que eles são “cabra da peste”. Eu não faço a mínima ideia do que isso significa, mas a forma como o sargento me olha faz-me perder qualquer curiosidade que algum dia eu tenha tido de entender essa expressão. Tantas e tantas ideias me surgem em frações de segundos, enquanto o “seu” Claudinei vira a folha do meu formulário e o analisa com cuidado. “Você é parente do “seu” Antônio?”, pergunta ele, arqueando as sobrancelhas e olhando-me por cima dos óculos. “Sim, senhor”. Neste momento o sargento, até então imóvel, balança a cabeça em sinal positivo. “Meu Deus do céu, o que isso quer dizer?”

O médico, então, aponta em direção a um pequeno aparelho em um canto da sala. “Por favor, puxe esta pequena barra para cima com o máximo de força que você puder”. Por um instante, eu fico sem saber o que fazer. Puxo com toda a minha força para ser selecionado ou apenas dou um pequeno puxão para ser dispensado? Sem ter muito tempo pra pensar, opto por um meio termo e puxo com força, mas não toda. Ele então anota alguma coisa no formulário e pede pra que eu fique apenas de cueca. Então ele mede minha altura e anota o meu peso. Em seguida, ele e o sargento seguem para outra sala e pede que eu os acompanhe. Ele se senta. “Você tem algum problema de saúde que o impeça de servir o tiro de guerra?”, pergunta ele. Mostro-lhe então as radiografias. “Tenho um problema na coluna.” Imediatamente ele abre as radiografias e lê o diagnóstico. “Aqui diz que o senhor tem escoliose, correto?”, diz ele. “Sim, senhor”, respondo. Para minha surpresa, e por que não dizer desespero, o sargento pronuncia suas primeiras palavras: “Esquece isso, isso aí não é nada”. O médico apenas balança a cabeça e pede que eu siga em direção à quadra de esportes. Lá se encontram os vários rapazes que passaram pelo exame antes de mim. Parecem aliviados. Eu, por outro lado, encontro-me intrigado: vou ser dispensado ou não?
(to be continued...) 

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