quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Lembranças de um ex-atirador - Parte 3

É difícil esconder-se do sol. Em busca de um pouco de sombra, alguns rapazes que acabaram de se submeter ao exame de seleção para o tiro de guerra encontram-se sentados no ressalto de meio metro de altura que margeia um dos lados da quadra de esportes. Sem terem onde sentar, os demais aproximam-se do muro que faz divisa com a casa com a casa do sargento e permanecem de pé. Encostado ao muro próximo ao portão, com o punho na altura dos olhos para impedir que a luz do sol chegue aos meus olhos, tento procurar algum rosto conhecido dentre os rapazes que ali estão. Minha tentativa é frustrada. Nem mesmo os óculos com lentes que escurecem à medida que a intensidade de luz ambiente aumenta consegue aliviar o incômodo de ter a luz do sol incidindo diretamente sobre mim. Por mais que os quase quatro graus de miopia e astigmatismo tornem o uso dos óculos necessário, eu só os estou usando por insistência de minha mãe, que achou que minhas chances de ser dispensado aumentariam se o sargento visse que eu sou míope. Neste momento, eu os amaldiçoo, pois além de não terem servido ao seu propósito, agora eles começam a atrapalhar minha visão devido ao suor que escorre da testa sobre eles. Eu os tiro e removo o suor escorrido sobre eles com a camiseta, deixando-os ainda mais embaçados com o suor que também umedece a camiseta. Passo então o punho, também úmido de suor, sobre a testa. De nada adianta. Estou banhado de suor. Sem os óculos e com as sobrancelhas baixas, sinto-me como uma topeira que acaba de vir à superfície. Tudo o que consigo ver são paredes pintadas na cor cinza e vários rapazes, agora todos sem face. “Deus do céu, é impossível que eu seja selecionado! Se tiver que atirar, nem o alvo serei capaz de enxergar!”
Subitamente, o sargento se aproxima. “Vamos lá, o pessoal da esquerda, aqui no meio da quadra. O pessoal da direita, os incapazes, aguardem próximos ao muro!”, brada ele. Só então percebo que os rapazes encontram-se divididos em dois grupos. Como eu me encontro no grupo próximo ao portão, minhas chances de ser dispensado aumentam, ainda mais depois de ele ter nos chamado de “incapazes”. Essas palavras parecem tirar um peso enorme de meus ombros. Respiro fundo, aliviado. “Agora é só esperar o certificado de dispensa”, penso comigo.
Enquanto ficamos ao lado, observando, o sargento começa a dar algumas instruções para os que estão no centro da quadra. Ele ensina aos que ali estão duas posições básicas: a posição “sentido” e a posição “descansar”. Na posição “sentido”, os rapazes permanecem com os pés juntos, os braços esticados e as mãos junto às pernas, com os dedos unidos. E a condição básica, que meu pai sempre disse que eu ouviria: “Peito pra fora, barriga pra dentro!”, esbraveja o sargento. Na posição “descansar” os rapazes permanecem com as pernas abertas e os punhos cerrados para trás, na altura da cintura. O sargento então explica que a passagem de uma posição para outra deve ser feita com vibração. “Tiro de guerra, sentido!” Como que em um passe de mágica, aquele bando de rapazes movimenta os braços junto ao corpo e deixa o peso de suas mãos colidirem com suas calças, colocando-se na posição “sentido”, como se fossem verdadeiros soldados. “Caralho, que da hora!”, exclama um dos colegas ao meu lado. “Tiro de guerra, descansar!” Ouço então o barulho dos tênis e sapatos tocando o chão quase que ao mesmo tempo. “Cara, é igualzinho ao exército!”, diz outro. “É claro que é exército, seu imbecil! Ou você acha que o tiro de guerra faz parte da marinha?”, diz outro, provavelmente seu colega, entre risadas, fazendo outros também rirem. “Cala a boca! Que porra tá acontecendo aí?”, grita o sargento, lançando-nos um olhar de raiva. Imediatamente todos se calam. “Puta merda, esse sargento é bravo pra caralho! Esses caras estão ferrados na mão dele!”, sussurra alguém ao meu lado. “Tiro de guerra, sentido!” E a sequência de movimentos se repete. “Tá uma meeeeerda! Seu bando de caga-paus! Tem alguém dormindo?” Ninguém responde. “Quando o seu comandante perguntar, vocês respondem ‘sim, senhor’ ou ‘não, senhor’. Entendido?” Todos parecem entender o recado. “Sim, senhor!”. “Tá fraco, tá fraco! Todo mundo para o chão, vinte flexões!” Alguns hesitam. “Cara, esse chão tá pegando fogo!” O sargento percebe. “Pooooooorra, quando eu falar para o chão, é pra vocês se jogarem! Entendido?” Embora não acreditem nem aceitem, eles parecem terem entendido a mensagem. Todos então se colocam na posição de flexão, com os braços abertos e os pés juntos. “Todo mundo vai pagar junto! Abaixo!” Todo mundo abaixa. “Acima”. Ao comando do sargento, os rapazes esticam os braços e levanta o corpo, alguns com dificuldade. “Quantas foram?” “Uma!”, gritam os rapazes. A sequência se repete. “Quantas foram?”, pergunta o sargento novamente. “Duas!”, respondem os rapazes, visivelmente cansados e enraivecidos. Olho para o lado e o que vejo é inexplicável: ao ver o sofrimento dos colegas, os rapazes do mesmo grupo que eu, os “incapazes”, parecem não nutrir nenhum tipo de piedade por aqueles que estão pagando flexões sob o sol escaldante. Pelo contrário: a maioria parece olhar com admiração para aquela cena e, eu ousaria dizer, parece invejar aqueles que lá estão. Se eu pudesse ler seus pensamentos, provavelmente ouviria “Eu queria estar lá” de pelo menos metade deles.

Após pagarem as vinte flexões, o sargento ordena que os rapazes fiquem de pé, na posição “descansar”. Subitamente, ele nos olha. “Vocês aí, bando de mocorongos! O que estão olhando? Estão com pena deles? Estão com inveja deles? Não precisa! Foi só pra eles sentirem o gostinho do que é fazer parte do tiro de guerra. Eles estão dispensados! Na semana que vem vocês é que estarão aqui!”, proclama o sargento. Alguns dos colegas ao meu lado sorriem, parecem gostar da notícia. Outros, como eu, levam as mãos ao rosto ou à cabeça, inconformados. “Não acredito, eu fui selecionado pra servir o tiro de guerra! Ah, não, era só o que me faltava!”
(to be continued...)

2 comentários:

fenixalc disse...

Muito bom mesmo Crotti... Ta contagiante..
Ta difícil parar de ler !!!!

👍👍👍👍👍👍👍

fenixalc disse...

Perfeita narrativa ... Ta difícil parar de ler... Lança logo a parte 4...

Cecilio