sábado, 27 de dezembro de 2014

Lembranças de um ex-atirador

Janeiro de 1995. A luz do sol, que aos poucos surge entre as copas das árvores, incomoda. A temperatura começa a subir gradativamente e, pouco a pouco, as gotas de suor começam a escorrer-me pelo tórax, deixando úmida a minha camiseta. Discretamente, olho no relógio no pulso do colega à minha frente; são 8h30min. Eu não o conheço. Na verdade, desconheço a maioria dos rapazes que estão nesta enorme fila, apesar de sermos todos da mesma idade. Há um ou outro colega que conheço por também frequentarem o clube da Baixada e bem poucos cujos rostos eu já vi pelas ruas da cidade afora. Confesso que isso me incomoda. A timidez fez de mim um rapaz introspectivo e é, atualmente, um grande obstáculo para que eu conheça novas pessoas e construa novas amizades.
À minha frente e atrás de mim encontra-se um sem número de rapazes que parecem se divertir com a situação. Por um instante tenho a sensação de que somente eu, com este enorme envelope nas mãos, estou incomodado. Dentro dele encontra-se um par de radiografias de minha coluna, evidência da escoliose que pode fazer com que eu me livre da enrascada que estou prestes a entrar. Ser selecionado para servir o tiro de guerra é uma possibilidade que me amedronta faz tempo por duas razões. A primeira delas é que durante o ano em que eu servir não surgirá nenhuma oportunidade de emprego para mim. Atiradores - é assim que se chamam os jovens que estão servindo o tiro de guerra - não são necessariamente o tipo preferido de empregado, pois uma vez por semana eles se ausentam do trabalho para ficar de plantão, além de poderem chegar um pouco depois do horário. Tudo isso é regularizado por lei e o empregador que dispensar um atirador é penalizado com multa. Por essa razão, jovens que já estão empregados e se tornam atiradores dificilmente serão dispensados. O fato é que estamos atravessando uma situação difícil lá em casa. De uns anos para cá meu pai, por mais que trabalhe, mal tem conseguido pagar as contas. Desde que o governo lançou o Plano Cruzado as coisas para ele e os caminhoneiros em geral ficaram muito ruins por causa do baixo valor do frete. Minha mãe faz “bicos” como costureira para ajudar na renda. Muitas vezes ficamos até tarde da noite, eu estudando e ela costurando. Graças a Deus nunca nos faltou comida, mas quase sempre o que acompanha o arroz e o feijão é abóbora ou queijo ralado. Por esta razão, ser selecionado para servir o tiro de guerra seria tornar-me um filho “inútil” durante um ano, incapaz de ajudar meus pais.
Por mais que ficar sem emprego seja ruim, o que mais me incomoda em servir o tiro de guerra é a sombra de meu pai. Sempre que ele pede pra eu ajuda-lo a fazer alguma coisa - a lavar o caminhão ou a lona ou a pintar as chapas da carroceria - eu procuro fazer o melhor que posso, mas ele nunca fica satisfeito. Diz que eu sou “lerdo” demais. “Você tem que fazer o tiro de guerra, moleque! Quando o sargento vir você lerdo desse jeito ele vai enfiar o coturno na tua canela! Aí você vai virar homem de verdade!”, brada ele em mais uma de suas premonições pouco positivas. Ele diz isso com a autoridade de quem recebeu um diploma de honra ao mérito por ser o que mais se destacou no tiro ao alvo. Por mais que eu queira provar que ele está enganado, sinto que não será servindo o tiro de guerra que eu conseguirei fazê-lo...

Enquanto encontro-me imerso em meu próprio mar de lamentações, cabisbaixo, ouço gargalhadas. “Cara, eu quero servir o TG. Meu primo serviu e disse que é a maior zueira!”, diz um, após narrar algumas aventuras do dito primo. “As mulheres adoram um homem de farda! Meu irmão serviu e disse que foi o ano em que ele mais ‘catou’ mulheres!”, diz outro. Outro rapaz parece triste porque tem certeza de que vai ser dispensado. Os relatos e as histórias vão se repetindo. “Meu amigo disse que fez campanha do agasalho, é bom pra caramba!” Todos aqui parecem enxergar esta situação com otimismo. “Só os melhores é que são selecionados”. Curiosamente, a sequência de comentários vai, aos poucos, fazendo com que eu comece a olhar esta situação com outros olhos. “Não pode ser tão ruim assim”, penso. Alguns minutos depois eu começo a achar-me ridículo com aquele enorme envelope nas mãos...
(to be continued...)
              Leia também: O dia em que voltei a ter 19 anos

3 comentários:

Espiritismo & Direito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Belo texto, meu amigo. Continua sendo o homem das ciências que melhor lida com as letras que conheço. Não me lembro se peguei aquela fila no mesmo dia em que você, mas não me esqueço que saí de lá revoltado, como nunca estivera antes em minha curta vida até então. Demorei alguns anos ainda para tranquilizar em meu íntimo os sentimentos daquele ano em que fui monitor, mas em que demorei quase seis meses para aprender a marchar; em que fui Tesoureiro do Grêmio dos Atiradores, mas em que não consegui erguer o meu tronco até a barra de exercício de braço sequer uma vezinha; em que não fazia o mesmo sucesso com a mulherada que vários outros atiradores, mas em que conheci a mulher da minha vida, a mãe dos meus filhos. Ano em que, também, como em todos os outros da minha existência, não fiquei bêbado nenhuma vez, não liderei nenhuma farra, nem participei da maioria dos churrascos, mas no qual conheci jovens sonhadores e lutadores, outros de personalidades curiosas, mas todos, sem exceção, figuras humanas admiráveis. Ano em que dormia quatro horas por noite em minha cama e pelo menos mais uma duas na carteira da Faculdade, mas do qual posso me orgulhar de ter estudado, trabalhado e servido à Pátria, tudo ao mesmo tempo. Mesmo ano em que estive muito próximo de Deus e distante da religião por total ausência de espaço na agenda, no qual, ainda, meu papai, meu herói que hoje mora no Céu, muito se orgulhou de mim, em que minha mãezinha chorou e madrugou comigo. Naquele ano, por fim, aprendi a ser subordinado de uma figura que se fazia respeitar por um rigor divertido, por uma imposição paternal, por uma seriedade necessária e um discurso aparentemente de poucos amigos, mas que muitos amigos conquistou no comando da jovem tropa. Escrevo tudo isso para dizer que, mesmo pouco ligado no WhatsApp, por absoluta falta de tempo, e mesmo ausente do recente churrasco como de costume, admiro nosso Capitão, sou fã incondicional dos 61 "mocorongos" que amadureceram e se tornaram homens honrados, com os quais hoje posso dizer que compartilhei o pior melhor ano da minha juventude. Forte abraço Crotti. Parabéns pelo blog e forte abraço também a todos os amigos que passarem por aqui para ler as histórias que, certamente, serão tão emocionantes como essa primeira que postou! 02 - Alan

Antônio Crotti disse...

Grande 02, monitor Alan, meu velho amigo...
Obrigado pelas gentis palavras. Eu me lembro, sim, da sua revolta. Você teve que conciliar o tiro de guerra com o trabalho e com a faculdade de Direito. Era um curso difícil e aquele deve ter sido um dos anos mais difíceis de sua vida. Tê-lo tido como colega naquele ano foi um grande privilégio para todos nós. Tenha a certeza de que você esteve conosco para nos ensinar muitas coisas através do exemplo de pessoa que você foi. Já naquela época - e desde sempre, já que nos conhecemos desde a infância - você mostrava que se tornaria o grande homem que é hoje.
Você é um cara que eu admiro e por quem sempre torci. Vê-lo tornar o que se tornou traz-me o conforto de saber que a vida nem sempre é injusta.
Um forte e saudoso abraço, meu amigo!
Eduardo / Crotti