domingo, 7 de dezembro de 2014

O almanaque Renascim-Sadol

Todo ano, nesta mesma época, eu me torno uma pessoa saudosista. As lembranças dos fins de ano de minha infância e adolescência tomam conta dos meus pensamentos e me fazem sentir saudade daqueles tempos. Era a época em que o papai voltava para casa, após um longo tempo ausente. Concidentemente, era a época em que eu começava a frequentar a casa da vovó Lourdes quase todos os dias. Lá eu meus primos e tios. Eu me sentava no sofá da varanda ou em uma daquelas cadeiras de descanso feitas de fios de plástico e ficava ouvindo-os conversarem. Quase sempre havia um Almanaque Sadol por ali. Sadol, na época, era um produto do Laboratório Catarinense destinado a aumentar o apetite. Eu adorava folhear o Almanaque, ler as piadas e resolver os passatempos que nele eu encontrava. Às vezes eu andava pelo quintal, e ao vê-lo cheio de folhas eu acabava varrendo-o para agradar a vovó. Como recompensa ela deixava que eu pegasse um cacho de uva da grande parreira que, a esta altura, já fazia sombra por toda a área de cimento vermelho..

Essas lembranças me perseguem todos os anos, mesmo quando minha avó estava entre nós. Curiosamente, são as lembranças boas que me trazem tristeza, talvez por agora serem apenas lembranças. Eu me recordo também das brigas, das saias-justas em que os irmãos e primos acabavam enfrentando por não se gostarem e não quererem se encontrar. Na época, é claro, eu queria que fosse diferente: eu sonhava com todos reunidos na grande mesa que a vovó havia comprado justamente com esse propósito. Coitada, morreu sem realizar seu sonho. Não há mais vovó, não há mais tio Tim, não há mais tio Natal, nem vovô Crotti nem tio Agenor. Talvez essas lembranças sejam minha consciência me alertado para aproveitar as coisas como são e não como eu gostaria que fosse, porque algum dia eu sentirei uma saudade imensa daquilo que, um dia, eu achei que não fosse bom o suficiente. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Procurando por um Almanaque Sadol em PDF o Google me trouxe até este blog... Qual não foi o meu espanto ao ver a foto do autor... Antigo colega de trabalho no interior paulista... Parabéns pelo blog... Abraços, Prof. Alex UNIFRAN