domingo, 4 de janeiro de 2015

Lembranças de um ex-atirador - Parte 4

São 5h50min. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Na verdade, por causa do horário de verão, são 4h50min. O galo canta soberano, anunciando que o dia está prestes a raiar. É o único som que consigo ouvir agora. Embriagado de sono, sustento meu corpo de pé apoiando o ombro e a cabeça no muro. Parece haver areia nos meus olhos; as pálpebras estão pesadas. Passo as mãos pelo rosto, na tentativa de espantar o sono. Em vão. A brisa da madrugada sopra de maneira calma e sorrateira, como se quisesse sussurrar em meus ouvidos: “Tu tá ferrado, camarada!”
Jogados pela calçada, deitados ou apoiados nos troncos das árvores, outros sessenta rapazes azarados encontram-se na mesma situação que eu. Embora isso não me sirva necessariamente como consolo, a possibilidade de conversar com algum conhecido e dizer-lhe “Há-há-há, você se fudeu!” traz certo conforto. Apesar da pouca luz, consigo identificar o Eduardo “Bonfim”, o Everaldo “Camarão”, o Ivan “Chupeta” e o “Marquinho” Firmino que, assim como eu, gostam de futebol e frequentam o clube da Baixada. Há também alguns com quem estudei no colégio ou no ensino médio. Alexandre “Léo”, Anderson “Branco”, “Edinho” Marcon, Marcelo e o Maurício “Domingos”, por exemplo, estudaram na escola Manoel Gouveia de Lima na mesma classe ou na mesma época que eu. “Léo”, por exemplo, foi quem me chamou de “Tonhão” pela primeira vez. Confesso que nunca entendi se o grau aumentativo desse apelido deveu-se ao jeito meio desengonçado e truculento, ou ao fato de eu ser, aos 10 anos, um dos mais altos da turma. Esta lembrança faz-me rir, já que a maioria dos rapazes de minha idade tem mais que os meus um metro e setenta centímetros de estatura. O fato é que, na época, o apelido me desagradou e, como tinha que ser, acabou “pegando” e me acompanha até hoje. “Branco” talvez seja um dos caras com quem eu mais convivi até hoje. Estudamos na mesma classe quase todos os anos do ensino fundamental e no primeiro ano do ensino médio. Também jogávamos vôlei no clube da Baixada - claro que ele, com mais de um metro e oitenta e cinco centímetros de estatura e bem mais habilidoso, era titular. Apesar disso, nunca fomos muito próximos. As razões para isso são perfeitamente compreensíveis: ele é o típico “capitão do time de futebol americano” da escola, loiro, popular, “boa praça”, que sai sempre com as moças mais bonitas, enquanto eu faço o tipo “nerd”, estudioso, tímido, pouco social e que “não pega ninguém”. No entanto, ao contrário dos filmes, sempre existiu um grande e incomum respeito mútuo entre a gente. William “Diez”, que estudava na Escola Sílvio Torquato Junqueira, também me é familiar dos campeonatos interescolares. Júlio “Medeiros”, mais conhecido por “Pio”, era amigo do Juliano “Zóim” e, por isso, pertencíamos à mesma turma na adolescência. Jean “Botelho” e William “Valente” são colegas de infância, embora tenhamos passado anos sem nos vermos e saiba pouco sobre eles hoje em dia. Jean, eu e outros colegas costumávamos brincar de “betes” e futebol em frente à casa de meus avós, aqui próximo ao tiro de guerra. William trabalhou durante alguns anos na oficina de meu tio, ao lado de casa, como auxiliar de mecânico. Anderson “Cecílio”, Lázaro “Mila” e Alan são conhecidos dos tempos de ensino médio. Certo dia, Anderson “Miguelão” foi à casa de sua prima, com quem cursei técnico em contabilidade, e deparou-se comigo dando aulas particulares de Biologia para ela. Desde aquele dia ele começou a chamar-me de “primo”, deixando-me constrangido pelo fato de ela ter namorado brucutu, extremamente ciumento e que tinha o “pavio curto”. No final das contas, acabamos nos tornando amigos. Lázaro, mais conhecido por “Lazim”, é meu primo em segundo grau; estudamos juntos no terceiro ano do ensino fundamental.

Dentre todos os conhecidos, certamente não há nenhum com quem me identifique tanto como o Alan “Marreta”. Assim como eu, Alan não é de família rica e tem um pai que sempre o cobrou muito com relação aos estudos. Sempre foi um rapaz muito dedicado e inteligente. Graças à sua dedicação, Alan conseguiu uma bolsa de estudos para estudar na melhor escola da cidade durante os três anos do ensino médio. No último ano do ensino médio eu também consegui uma bolsa de estudos e acabamos estudando na mesma turma. Éramos bons amigos. Ao término daquele ano Alan prestou vestibular e ingressou em uma das melhores faculdades de Direito do país. Desde o primeiro ano de seu curso de graduação Alan trabalha no escritório de advocacia de seu tio. Talvez seja pelo fato de ter que conciliar o trabalho e a faculdade com o tiro de guerra que ele esteja tão revoltado. Daqui de onde estou posso vê-lo gesticulando, visivelmente inconformado. Ele abre os braços e depois os fecha à frente do corpo, apontando para o tiro de guerra. Ele leva as mãos à região lateral da cabeça, como se quisesse dizer: “Isso aqui não tem cabimento!”. Quando penso em acenar a cabeça e manifestar meu apoio a ele, ouço o ruído do atrito entre o pesado portão de metal contra o concreto. Mal o portão se abre e uma voz surge de trás dele. “Vamos lá, tiro de guerra, vamos lá!” Eu me coloco de pé, coloco-me entre os colegas e sigo para o primeiro dia de instrução, sentindo-me como um boi na fila para o abate...
(to be continued...)