terça-feira, 15 de março de 2016

Saudosismo

Às vezes, quando passeio pelas ruas do bairro onde vivi durante 26 anos, bate-me um saudosismo enorme. Essas ruas não são mais as mesmas. Tudo está diferente, tudo parece menor e mais organizado. Não há mais crianças brincando pelas ruas e eu não sei mais quem mora em cada casa. Sei que aqueles colegas com quem eu brincava nas ruas são adultos e que os pais de muitos deles não moram mais nas mesmas casas ou faleceram. Nessas horas eu sinto um vazio enorme. Não que o meu coração esteja vazio, não é isso. A vida seguiu em frente – e eu agradeço a Deus a cada segundo por isso ter acontecido – e hoje eu me tornei pelo menos a sombra de quem eu imaginava ser quando era adolescente, com esposa, filhos, casa e emprego. Mas cada coisa tem o seu valor e às vezes é inútil achar que uma coisa pode substituir a outra. Não, não se trata de infelicidade. Trata-se de saudade. Trata-se de ter lembranças de uma época que, em meio a tantos conflitos, talvez nem tenha sido tão boa assim. Talvez seja apenas a sensação de estar envelhecendo, de ter que ver o mundo que você sempre conheceu desabando e originando um outro no qual eu sou um estranho. Talvez seja apenas Deus me fazendo entender a dor que meu pai sente quando se queixa de que a vida não vale mais a pena. Talvez seja apenas medo do que Deus me guarda para o futuro. Medo das perdas que estão por vir, das pessoas tão queridas que estão prestes a partir. Talvez seja o medo de ser tomado pelo isolamento e pela solidão que tombaram meu pai. Talvez seja apenas a tristeza de ver em meu pai a pessoa que estou para me tornar, por mais que eu lute. Ou talvez seja apenas a meia idade chegando. 

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