sábado, 11 de junho de 2016

Contagem regressiva para os 40 anos


Iniciando a contagem regressiva para os 40 anos, aqui vai uma retrospectiva quinquenal de alguns fatos de minha vida:

# Aos 5 anos eu morava em Quirinópolis-GO e não tinha ninguém pra brincar. Minha irmã era bem pequena e eu tinha que brincar sozinho entre as bananeiras do quintal ou nas barracas de lona de plástico que o papai fazia para mim. Tinha vários carrinhos de plástico, que ainda guardo (apesar de ressecados) e adorava brincar de soldado. Papai era meu herói e meu melhor amigo;

# Aos 10 anos eu morava em São Joaquim da Barra-SP. Estudava na escola Manoel Gouveia de Lima, na 4ª série, e tinha muitos amigos para brincar: Alessandro, Batata, André, Marcelo... Brincávamos de “betes”, de queimada, de polícia e ladrão, de pique-esconde. Foi naquele ano que papai comprou minha primeira bicicleta – uma Monark Triunfo branca – e que eu caí meus primeiros tombos;

# Aos 15 anos eu estudava em dois períodos: de manhã, na escola Pedro Badran; à noite, na escola técnica São José (FEAM). Passava as tardes no clube da Baixada jogando futebol, vôlei ou tênis de mesa, ou na casa do meu amigo Carlos Trindade, com quem (e em quem) eu adorava jogar xadrez. Foi naquele ano que papai comprou-me uma mobilete Zanella cor azul, da qual eu caí após passar por um buraco enorme;

# Aos 20 anos eu trabalhava no almoxarifado agrícola da Usina Alta Mogiana e, à noite, cursava Química na Unifran. Foi com essa idade que conheci meus amigos Wilson e Norba, então meus professores, que mudariam os rumos de minha vida. Tinha um Gol BX branco – um Gol equipado com motor de Fusca. Papai era caminhoneiro e chegava a passar meses longe de casa. Parecia orgulhoso por eu estar empregado;

# Aos 25 anos eu defendi o mestrado na USP-RP e ingressei no doutorado. Morava na casa de pós-graduação 12 com mais umas 15 pessoas, a maioria muito queridas e cujas histórias de vida difícil me serviam de exemplo. Papai, que agora eu pouco via, não se conformava por eu ter abandonado o emprego para estudar. Achava que abrir mão de um emprego tão bom tinha sido uma tremenda burrada;

# Aos 30 anos eu era professor e pesquisador na Unifran, instituição onde havia me formado, Foi com essa idade que fui escolhido como nome da turma de formandos em Química. Morava com meus pais, mas já havia começado a construir a minha casa. Foi também com essa idade que minha coluna começou a “travar” por causa dos bicos de papagaio. Papai, que havia feito cirurgia para retirar o câncer de um de seus rins, passava a maior parte do tempo em casa sem poder trabalhar. Ainda assim eu tinha pouco tempo para conversar com ele, já que também dava aulas no ensino médio da escola estadual Edda Cardozo de Souza Marcussi,

# Aos 35 anos eu já (?) havia me casado com aquela linda morena de cabelos longos que conheci aos 19. Mais que isso: tornei-me pai. Miguel encheu nossa família e nossa casa de alegria. Meu pai, que tanto sofrera com depressão após a morte de minha avó, voltou a sorrir. Seu filho, enfim, tornou-se pai;

# Aos 40 anos estou realizando o sonho antigo de trabalhar na USP e meus bicos de papagaio sumiram da radiografia e não mais me causam dor. Sou pai também da Alice, e Miguel, hoje com cinco anos, adora brincar entre as bananeiras da casa de meus pais, fazendo-me lembrar de alguém. Quando chego em casa e ele vem correndo ao meu encontro, lembro-me de uma criança que ficava aguardando, com cheiro de sabonete, seu pai chegar de trator da roça ao final do dia. O pai dessa criança, outrora um homem forte e trabalhador, é hoje um senhor de cabelos grisalhos de saúde frágil que vem aqui em casa todas as manhãs buscar Miguel e Alice para leva-los para a escola. Após 35 anos seu filho ainda aguarda diariamente por seu melhor amigo e herói de tantas batalhas e o abraça e beija como fazia aos 5 anos. Que bom que nem tudo mudou...

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