sábado, 19 de agosto de 2017

Para nos lembrarmos dos dias mais felizes

Queridos Miguel e Alice,
Novamente escrevo em uma noite de sábado, enquanto vocês dormem. Hoje Alice adormeceu ao lado da mamãe, abraçada a ela. Miguel “apagou” logo após eu colocar o DVD do Toy Story, ainda nos trailers. Enquanto vocês dormem, cá estou em uma noite de sábado, a escrever-lhes novamente. É estranho estar no presente escrevendo para vocês no futuro, mas é para mim quase que uma necessidade registrar o imenso amor que sinto por vocês. Os dias que tenho vivido ao lado de vocês serão lembrados por mim como os melhores de minha vida. Digo isso porque o vovô Altair se lembra de minha infância como os melhores dias da vida dele e até hoje, por mais durão que tenha sido ao longo de sua vida, emociona-se quando fala deles.
Miguel passa bom tempo desenhando. Seus traços são lindos! Comecei a selecionar alguns de seus desenhos e a guarda-los em uma pequena caixa de papel que chamei de “Caixa dos desenhos especiais”. Bem, os desenhos especiais tornaram-se tão numerosos que tive que comprar uma caixa maior. Quando te dei de presente dois cadernos de desenho, percebi que você continuava a desenhar em folhas de sulfite. Depois entendi que sua intenção era que todos os desenhos fossem especiais! Você passa bastante tempo envolvido com jogos no celular. Às vezes chego do trabalho e você nem percebe... Imagino como vai ser na adolescência... Dias difíceis virão para nós, meu filho. Por isso, eu o abraço e converso com você o máximo que posso. Tenho ido busca-lo no inglês às segundas-feiras para passearmos um pouco pela cidade. Você deita o banco e diz “Que gostoso, papai!” o tempo inteiro. Então eu coloco a mão sobre o seu peito, você a toma, a beija e a passa pelo seu rosto, dizendo:” Papai, eu gosto tanto do senhor...”. Esses momentos estão passando tão rápido... Suas costas, pernas e braços já estão “peludinhos”, embora você tenha apenas seis anos. Olho para você e me vejo, inclusive com algumas das inseguranças e manias, mas espero que consiga lidar com elas. Estarei aqui para ajuda-lo.
Alice brinca o dia todo com suas bonecas e suas “coisinhas”. Prestes a completar quatro anos, você é incrivelmente encantadora, linda, inteligente e doce! Hoje pela manhã, enquanto limpava a varanda e organizada as coisas que você deixou jogada, não lamentei a bagunça (como geralmente faço!). Pelo contrário: dei-me conta de que em poucos anos você não mais conversará com sua sereia ou com a raposa e a “bódinha” do Zootopia e que sua Ana e a Rainha Elza ficarão encaixotadas. Sua casinha da Polly deixará de ocupar o balcão que construímos na varanda especialmente para acomodar as coisas de vocês. Em pouco tempo você deixará de brincar na banheira enquanto toma banho e não mais acordará no meio da noite me procurando quando eu acordo no meio da noite. A saudade dói muito desde já.
Mas há um assunto muito sério que eu gostaria de tratar com vocês. É sobre a minha tristeza. Como eu disse, esses têm sido os dias mais felizes de minha vida, mas têm sido também muito difícil aceitar que muitas coisas serão perdidas de hoje até o dia em que vocês conseguirem entender essas palavras. Seus avós estão envelhecendo e seus bisavós já estão em idade avançada. É incrível como todos eles amam vocês e eu espero, do fundo do coração, que vocês tenham conseguido mantê-los vivos entre as memórias que vocês guardaram desses anos. O biso Mila é um homem fantástico! Muito bem humorado; todo mundo o adora! Adora beber sua cervejinha todas as noites, mas só o faz em casa. Ele sempre foi como um segundo pai pra mim e eu provavelmente me tornarei um clone dele quando estiver mais velho. Graças a Deus ainda goza de boa saúde, mas está se aproximando dos 90 anos. Já a bisa Maria, apesar de quatro anos mais jovem, sofre com dores nas costas e no nervo ciático – a vovó provavelmente herdou dela essas dores. Há um par de histórias incríveis sobre a bisa – as bolachinhas que ela fazia pra eu levar pra Ribeirão Preto durante toda a pós-graduação, o desmaio dela quando me deixou na moradia estudantil, a tentativa de colar com Super Bonder a ponta do dedo que cortou acidentalmente com a faca. É uma pessoa muito alegre também, mas igualmente nervosa. Tem passado os últimos anos quase que o dia todo assistindo a Rede Vida e rezando pra todos nós. O que mais chama a atenção é o medo que ela tem da morte. Ela sabe que o dia de sua partida está chegando. Na verdade, todos sabemos. Vovô Altair também não está com boa saúde. Sofre com diabetes e seu coração funciona com marca-passo. Seus exames estão alterados e sua pressão também. Embora ele fosse um “monstro” para trabalhar, nunca foi adepto de atividades físicas e, por isso, sofre pra emagrecer. A situação está complicada.
Enquanto vocês crescem, alegres, saudáveis e cheios de vida, passado, presente e futuro se chocam em minha mente. Tenho lembrado muito dos meus anos de infância, em Quirinópolis-GO, quando tinha a idade de vocês e vivia com seus avós. Todos eram tão jovens! Então olho vocês, pequenos e com a vida pela frente, e olho para os seus avós e bisavós. Assim como cresci e aquelas pessoas fortes de minha infância envelheceram, vocês também crescerão e eu envelhecerei. Quando forem capazes de entender essas palavras – certamente as entenderão quando forem pais e vivenciarem o mesmo conflito que agora enfrento – eu serei uma pessoa diferente. Miguel já não precisará mais de mim para abrir uma garrafa nem dirá “Nossa, papai, como o senhor é forte!” e Alice não mais pedirá pra eu fazer um “leitinho bem quentinho” pra ela antes de dormir. Eu serei, meus filhos, um homem envelhecido e triste, que enfrentou a perda dos avós e, provavelmente, dos pais.
Vocês devem estar se perguntando: se esses são os dias mais felizes de minha vida, por que escrevo essas palavras tão tristes? Simplesmente porque eu quero que vocês saibam que vocês sempre são, desde que nasceram, os maiores motivos de minha felicidade. Pode ser que, quando me verem triste aí ao lado de vocês, no futuro, vocês achem que eu deixei de amá-los e que vocês não são mais motivo suficiente pra minha felicidade. Sim, meus filhos, é provável que vocês pensei isso. Sabem por quê? Porque eu pensei o mesmo do vovô Altair quando eu o via triste. Eu não entendia o sofrimento dele e me revoltava quando o ouvia dizer que estava ficando velho e que já tinha vivido demais. Cortava-me o coração vê-lo abatido e vendo que nada do que eu fazia conseguia animá-lo. O fato é que eu simplesmente não entendia o que ele sentia até sentir o mesmo, até perder as pessoas que, como filhos, mais amamos na vida: nossos pais e nossos avós. Peço apenas que tenham paciência, como eu tenho tido com o seu avô – e que tenham paciência comigo. Este papai que está aí ao lado de vocês no futuro foi, um dia, aquele que escreveu essas palavras e que viveu intensamente ao lado de vocês os melhores anos. E se nem eu nem vocês formos capazes de nos lembrarmos disso, espero que essas palavras, escritas entre lágrimas em uma madrugada de sábado, cumpram este papel.
Despeço-me agora. Já é mais de meia noite. Vou dar um beijo na mamãe de vocês, cobrir Miguel com seu edredon branco e dividir o cobertor de “urso” com a Alice no colchão ao lado de sua cama. Ah, como sinto saudade desses momentos...
Com amor,

Papai

sábado, 5 de agosto de 2017

Saudade do papai

Tenho andado muito reflexivo nas últimas duas semanas. Tudo começou quando o pai de um grande amigo meu faleceu. Estive no velório e presenciei a dor de cada familiar. Em certo momento, ele se levantou para despedir-se dele. Colocou sua mão sobre as mãos de seu pai, passou a mão pelo rosto dele e o beijou após dizer alguma coisa em voz baixa. Foi então que me vi nele. Imaginei-me no mesmo momento de perda. Senti uma tristeza horrível, certamente a mesma que meu amigo estava sentindo naquele momento. Sentei-me e, de óculos e boné, escondi o rosto entre as mãos e chorei.
Desde então não tenho mais sido o mesmo. A ideia de o mundo que conheço acabar me assombra. Sei que vou perder meu pai um dia, mas ter a sensação de que esses dias terríveis estão cada vez mais próximos me deixa totalmente sem rumo.
Meu pai costuma dizer que a cada dia morremos um pouco. Nunca gostei de ouvi-lo dizer isso. Na verdade, nunca gostei de ouvi-lo falar em morte. Eu sei que ele quis dizer que a cada dia envelhecemos e o dia de nossa morte se aproxima, mas outra interpretação assombrosa me veio à mente: a cada dia nós morremos, de fato! A pessoa que fomos ontem já não existe mais. Hoje, ao acordarmos, somos pessoas um pouco diferentes das que fomos ontem. Quando nos recordamos de nossa infância, estamos nos lembrando de alguém que não existe mais. Os pais e avós, aqueles com quem brincávamos e que nos protegiam quando crianças, vivem agora apenas em nossas lembranças. Podemos até visita-los, dar atenção, abraça-los, amá-los com todo o coração, mas não são mais os mesmos. Da mesma forma, não somos mais as crianças doces e cheirando a sabonete que éramos. Crescemos, tornamo-nos adultos. Eles envelheceram, perderam suas forças e, muitas vezes, a razão de sorrir e de viver. No entanto, é a lembrança das pessoas que fomos, e não das que somos hoje, que mantêm viva a relação entre pais e filhos, avôs e netos, filhos e sobrinhos e de irmãos.

Dias após a morte de seu pai, esse amigo que mencionei desabafou dizendo que as lembranças mais fortes de seu que lhe vêm à mente são as de quando ele era criança. Entre lágrimas, lembrei-me de uma foto de meu pai, de décadas atrás, que meu primo Polaco postou no facebook. Era uma foto tirada enquanto trabalhavam na colheita. Nela meu pai aparecia forte e sorrindo, como poucas vezes o vi. Aquela foto foi a materialização da forma como me lembro dele. Hoje ele está aposentado, e ao invés de viajar o Brasil na boleia de seu caminhão Mercedes Benz 2013 amarelo, passa o dia em casa, ora no quintal, ora na cozinha, ora na sala, ora na televisão. Mas naquele corpo, hoje envelhecido e enfraquecido, ainda vive o meu melhor amigo, o meu companheiro de jornada. Não é mais o homem mais forte do mundo, mas é ele o homem que um dia achei ser o mais forte do mundo e do qual tanto me orgulho. Eu o vejo todos os dias, o abraço todos os dias, mas ainda assim sinto saudade do meu "papai"... Quando ele partir, que Deus me ajude a não morrer de saudade e de tristeza.