domingo, 17 de setembro de 2017

Uma razão para (alguém) continuar

No início deste mês retornei às quadras, não mais para o querido futsal, mas para o voleibol, que eu havia abandonado no final da puberdade. Passei a fazer parte de uma turma bastante heterogênea, em que alguns jogam muito bem e outros são iniciantes. O que sempre apreciei nos esportes coletivos são as amizades que acabam se construindo, e independente do meu desempenho em quadra, creio que tenho me saído bem neste “fundamento”. Durante a semana, nos treinos na academia, um jovem rapaz da turma sempre vinha me cumprimentar. Em todas as ocasiões, ele insistia que não ia aparecer mais nos treinos porque jogava “muito mal”. Para motivá-lo, expliquei-lhe que alguns eram realmente mais experientes, mas que estávamos todos no mesmo barco. Pois bem. Na última sexta-feira acabei-me acidentando nos treinos na quadra durante uma queda e meu ombro deslocou-se. Há tempos não sentia uma dor tão terrível! Fiquei caído no chão, gemendo, com meu ombro fora do lugar. Senti então alguém me posicionando com as costas no chão e me pedindo para esticar o braço. “Ele é bombeiro civil, confie nele!”, disse um colega. De repente, meu ombro retornou à sua posição de origem e, do nada, a dor se foi. Quando olhei o anjo de guarda que havia me ajudado, eis a surpresa: ali estava o jovem rapaz que tanto insisti para vir jogar conosco... 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O fantasma do Hotel Pestana


Em 2004, a Reunião Anual da SBQ foi realizada em Salvador, juntamente com o Congresso Latino-americano de Química. Dentre as várias lembranças daquele congresso estão os passeios de escuna com os colegas da área de Química de Produtos Naturais e com o saudoso prof. Luiz Fernando da Silva Júnior, mas o “causo” do fantasma do Hotel Pestana foi certamente o mais marcante. O “causo” envolveu o prof. Norberto Peporine Lopes (Betão), naquela época em seus primeiros anos de carreira, os professores Leonardo Gobbo Neto (Gobbo) e Vanessa Leiria Campo, então colegas de pós-graduação, e os icônicos amigos Humberto Sakamoto e Michel David dos Santos.
Ao final do segundo dia de congresso, nosso colega Nilton Arakawa, que na época tocava em uma banda de rock, muniu-se de seu violão e reuniu professores e alunos da USP de Ribeirão Preto para um “happy hour” no saguão do Hotel Pestana, onde estávamos hospedados. Após algumas horas de um bate papo agradável e de muitas risadas, perdi minha batalha contra o sono e decidi sair de cena. Despedi-me de todos e disse que estava subindo para descansar no apartamento que dividia com o Sakamoto. Ao ver-me saindo, Betão não se conteve: “Miller, tome cuidado, hein? Dizem que este hotel é mal assombrado”. Sem levá-lo muito a sério, apenas balancei a cabeça e segui para o apartamento.
Algumas horas depois – não sei exatamente quantas - já em sono profundo, senti uma luz acesa me incomodando. Meio bêbado de sono, olhei para o lado e vi Sakamoto deitado em sua cama, acordado. A porta estava aberta e a luz que me incomodava vinha do corredor. De repente, ouvi alguém chamando meu nome:
-  “Miiiiiiller! Miiiiiiiller!”
Virei-me na cama e balbuciei:
- Sakamoto, pelo amor de Deus, estou morrendo de sono. Amanhã a gente conversa. E feche a porta, por favor!
- Hum? Mas eu não falei nada!”, respondeu prontamente.
- Miller, Miller! – disse a voz, que agora parecia se aproximar.
- Se não foi você, então quem foi?
Quando me virei novamente na cama, agora em direção à porta, vi uma criatura vestida de branco vindo em minha direção, chamando meu nome.
- Miiiiiller, Miiiiiller!
- Sakamoto, que porra é essa?
- Hum? Mas eu não estou vendo nada...
Por um milésimo de segundo, ainda sonolento, senti um frio na barriga enquanto aquele “fantasma” se aproximava de mim, com os braços levantados. Após a adrenalina tomar conta, percebi que se tratava de alguém trajando um lençol branco querendo assustar-me. Dei um salto da cama e coloquei-me de pé
- Miller? Miller, né? Peraí que eu vou te mostrar o Miller...
Armado com o enorme canudo verde de papelão onde estava acomodado o meu pôster e parti para cima do “fantasminha”, desferindo golpes nas costas, nos braços e nas pernas. Acuado, o fantasminha deu meia volta e saiu pela porta, correndo pelos corredores do Pestana, enquanto eu o perseguia. Quando passei pela porta no encalço do fantasma, deparei-me com Betão, Gobbo e Michel se contorcendo em gargalhadas. Após uns 15 metros de perseguição e vários golpes desferidos com o canudo, que já estava todo deformado, desisti do fantasminha e voltei para acertar as contas com os mentores da brincadeira. Já com dores no abdômen e com lágrimas nos olhos de tanto rirem, os três pareciam anestesiados e pouco se importaram com os meus golpes.
- Seus filhos da mãe! - disse a eles, dando meia volta e fechando a porta.
No dia seguinte, o episódio do fantasma do Pestana foi o assunto do café da manhã,. Todos riram muito, inclusive eu. No entanto, uma coisa ainda me intrigava: quem o Betão teria convencido a se vestir de fantasma?
- Você jamais saberá. Prometi não contar – disse ele, nutrindo ainda mais minha curiosidade.
Quando estávamos quase terminando o café da manhã, Vanessa aproximou-se e juntou-se a nós. Estava séria. Notei que seus braços estavam cheios de hematomas.
- Meu Deus, Vanessa, o que aconteceu? Você caiu?
Ela olha para o Betão, que se segura pra não rir, e me lança um olhar de raiva.
- Caí, sim... Caí em uma brincadeira...
E assim descobri a identidade do fantasma do Hotel Pestana, que provavelmente nunca mais assombrou ninguém...