sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O fantasma do Hotel Pestana


Em 2004, a Reunião Anual da SBQ foi realizada em Salvador, juntamente com o Congresso Latino-americano de Química. Dentre as várias lembranças daquele congresso estão os passeios de escuna com os colegas da área de Química de Produtos Naturais e com o saudoso prof. Luiz Fernando da Silva Júnior, mas o “causo” do fantasma do Hotel Pestana foi certamente o mais marcante. O “causo” envolveu o prof. Norberto Peporine Lopes (Betão), naquela época em seus primeiros anos de carreira, os professores Leonardo Gobbo Neto (Gobbo) e Vanessa Leiria Campo, então colegas de pós-graduação, e os icônicos amigos Humberto Sakamoto e Michel David dos Santos.
Ao final do segundo dia de congresso, nosso colega Nilton Arakawa, que na época tocava em uma banda de rock, muniu-se de seu violão e reuniu professores e alunos da USP de Ribeirão Preto para um “happy hour” no saguão do Hotel Pestana, onde estávamos hospedados. Após algumas horas de um bate papo agradável e de muitas risadas, perdi minha batalha contra o sono e decidi sair de cena. Despedi-me de todos e disse que estava subindo para descansar no apartamento que dividia com o Sakamoto. Ao ver-me saindo, Betão não se conteve: “Miller, tome cuidado, hein? Dizem que este hotel é mal assombrado”. Sem levá-lo muito a sério, apenas balancei a cabeça e segui para o apartamento.
Algumas horas depois – não sei exatamente quantas - já em sono profundo, senti uma luz acesa me incomodando. Meio bêbado de sono, olhei para o lado e vi Sakamoto deitado em sua cama, acordado. A porta estava aberta e a luz que me incomodava vinha do corredor. De repente, ouvi alguém chamando meu nome:
-  “Miiiiiiller! Miiiiiiiller!”
Virei-me na cama e balbuciei:
- Sakamoto, pelo amor de Deus, estou morrendo de sono. Amanhã a gente conversa. E feche a porta, por favor!
- Hum? Mas eu não falei nada!”, respondeu prontamente.
- Miller, Miller! – disse a voz, que agora parecia se aproximar.
- Se não foi você, então quem foi?
Quando me virei novamente na cama, agora em direção à porta, vi uma criatura vestida de branco vindo em minha direção, chamando meu nome.
- Miiiiiller, Miiiiiller!
- Sakamoto, que porra é essa?
- Hum? Mas eu não estou vendo nada...
Por um milésimo de segundo, ainda sonolento, senti um frio na barriga enquanto aquele “fantasma” se aproximava de mim, com os braços levantados. Após a adrenalina tomar conta, percebi que se tratava de alguém trajando um lençol branco querendo assustar-me. Dei um salto da cama e coloquei-me de pé
- Miller? Miller, né? Peraí que eu vou te mostrar o Miller...
Armado com o enorme canudo verde de papelão onde estava acomodado o meu pôster e parti para cima do “fantasminha”, desferindo golpes nas costas, nos braços e nas pernas. Acuado, o fantasminha deu meia volta e saiu pela porta, correndo pelos corredores do Pestana, enquanto eu o perseguia. Quando passei pela porta no encalço do fantasma, deparei-me com Betão, Gobbo e Michel se contorcendo em gargalhadas. Após uns 15 metros de perseguição e vários golpes desferidos com o canudo, que já estava todo deformado, desisti do fantasminha e voltei para acertar as contas com os mentores da brincadeira. Já com dores no abdômen e com lágrimas nos olhos de tanto rirem, os três pareciam anestesiados e pouco se importaram com os meus golpes.
- Seus filhos da mãe! - disse a eles, dando meia volta e fechando a porta.
No dia seguinte, o episódio do fantasma do Pestana foi o assunto do café da manhã,. Todos riram muito, inclusive eu. No entanto, uma coisa ainda me intrigava: quem o Betão teria convencido a se vestir de fantasma?
- Você jamais saberá. Prometi não contar – disse ele, nutrindo ainda mais minha curiosidade.
Quando estávamos quase terminando o café da manhã, Vanessa aproximou-se e juntou-se a nós. Estava séria. Notei que seus braços estavam cheios de hematomas.
- Meu Deus, Vanessa, o que aconteceu? Você caiu?
Ela olha para o Betão, que se segura pra não rir, e me lança um olhar de raiva.
- Caí, sim... Caí em uma brincadeira...
E assim descobri a identidade do fantasma do Hotel Pestana, que provavelmente nunca mais assombrou ninguém...

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